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Um ano extraordinário que quase passa em claro
Quinta-feira, Dezembro 6, 2018

Sempre ouvi dizer que elogio em causa própria é vitupério. Este texto pode, assim sendo, cruzar essa linha. Eu próprio integro o movimento sobre o qual escrevo adiante. Mas não me parece possível chegar ao final do ano com uma sensação fortíssima e não deixar de sublinhá-la. Este foi um ano extraordinário na cultura em Guimarães.

Já elencarei os motivos pelos quais chego a essa conclusão. Começo pela segunda parte da questão que me levou a escrever sobre o tema. É que, num ano tão intenso e positivo, pouco ou nada se escreveu ou disse na cidade sobre o que nela estava a acontecer.

O melhor é mesmo começar por aqui. Guimarães tem um hábito de olhar para si como maior do que realmente é. Não é um defeito. É uma das forças da cidade. É isso que lhe permite “socar acima do seu peso” (tradução literal da expressão “punch above its weight”, que ouvi a um inglês de boa memória, que a Capital Europeia da Cultura fez cruzar connosco, Bob Scott).

Guimarães vê-se como uma das principais cidades do país e, no entanto, não tem um jornal diário. Não tem, sequer, um projecto online digno da mínima atenção. A generalidade da comunicação social que existe é anémica e está nos antípodas da história da imprensa na cidade e daquilo que se exigiria no final da segunda década do século XXI. Não é por culpa dos jornalistas, é mesmo de quem dirige os negócios.

É incompreensível que numa cidade que foi Capital Europeia da Cultura e que destina uma generosa fatia do seu investimento público à cultura, a presença dos conteúdos artísticos e culturais na comunicação social seja tão escassa.

Este foi o ano em que uma das artistas plásticas mais relevantes dos Estados Unidos, Ann Hamilton, esteve em residência artística em Guimarães. O convite foi da bienal de arte têxtil Contextile, que teve a sua melhor edição de sempre com 40 mil visitantes.

Este foi o ano em que dois projectos nascidos aqui estiveram no programa oficial de Valletta 2018 – Capital Europeia da Cultura: Mewġa Mużika, do colectivo Ondamarela, e MODS Collective, da Capivara Azul – Associação Cultura. O MODS Collective (eis a linha do vitupério: faço parte deste grupo) abriu também o festival Paredes de Coura.

Este é o ano em que, na periferia do concelho, a CAISA inventou um festival de Verão e uma programação consistente e regular, com uma ligação com o território digna de nota.

Este foi o ano em que o Mucho Flow, promovido pela Revolve, teve a sua edição mais concorrida, com lotação esgotada. Meses antes, a mesma associação programou a edição mais bem-sucedida do Vai m’a Banda.

Este foi o ano em que o L’Agosto, organizado pela Elephante Muzik, passou com sucesso o “teste de stress” de uma mudança de local e do facto de a entrada passar a ser paga.

Isto tudo aconteceu em 12 meses. E sobre tudo isto pouco ou nada lemos e ouvimos na cidade. É contra esse esquecimento que assumo o risco de ser deselegante.