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Terminando, sobre o “celtismo”
Quinta-feira, Abril 9, 2020

Fragmento de lucerna romana, de fabrico itálico, recolhido em Chaves, em 2007, com representação de uma figura tocando gaita de foles. Arquivo Municipal de Chaves. Reproduzido de Rui Morais, 2017, revista Saguntum, vol. Extra-19.

Na atualidade, importa sobretudo referir que o “celtismo” não é um fenómeno exclusivo e localizado. Aliás, o próprio termo não é muito adequado, porque retrata diferentes situações e posturas, com intenções e fundamentos distintos.

Antes de mais, a existência de uma “cultura Celta” e/ou de uma etnia com esta designação na Antiguidade é utilizada por vários investigadores de renome na comunidade académica. Embora o assunto permaneça controverso, estes investigadores apresentam alguns argumentos que devem ser tidos em consideração, nomeadamente as referências claras aos Celtas nos textos da Antiguidade e os pontos comuns que parecem unir culturalmente vários povos. Pontos que, aliás, já aqui referimos. Porque a História e a Arqueologia não são ciências exatas, é difícil refutar liminarmente o “celtismo”. Mas, do mesmo modo, os argumentos apresentados em sua defesa estão longe de ser coerentes e definitivos… Esta é uma das razões porque uma parte considerável dos investigadores tende a abandonar esta nomenclatura. Pessoalmente, parece-me pouco coerente sustentar a ideia de uma “Europa celta” na Antiguidade, tendo em conta a subjetividade das fontes escritas, aliada à clara diversidade dos vestígios arqueológicos. Creio, no entanto, que também aqui muitos investigadores “celtistas” trabalham com convicções demasiado consolidadas para mudarem de opinião…

Depois temos o “celtismo” presente em vários sectores da sociedade, difundido pelas interpretações literais que os primeiros investigadores, sobretudo no século XIX, fizeram das fontes clássicas, e pela propaganda dos regimes nacionalistas do século XX. É por isso que hoje muita gente acha que certos elementos etnográficos, como os carros de bois, os tecidos com padrão escocês, as gaitas de foles, o fado (!)… são de origem “celta”. A gaita de foles é, aliás, um caso paradigmático. De origem incerta, difundida em Roma no tempo de República e levada para o Norte da Europa no quadro da expansão romana, é considerada por muitos o instrumento “celta” por excelência… A “música celta” em geral, não terá nenhuma relação com a Antiguidade, sendo, na verdade, música tradicional de algumas regiões europeias, com origem na Idade Média.

Ainda hoje o “celtismo” influencia sentimentos nacionalistas, em diferentes regiões europeias, da qual a Galiza é um exemplo. Neste caso, aqui perto, o carácter redutor de uma influência externa dos Celtas, levou alguns nacionalistas a, nos últimos anos, alterarem o foco para uma nova teoria, que defende serem os Celtas originários da Galiza! Já em Portugal, a historiografia tradicional baseava-se mais nos Lusitanos (veja-se o “Viriato” de Teófilo Braga, obra claramente propagandística), embora se assumisse uma origem “celtibérica” destes.

No que diz respeito aos Celtas na sociedade em geral, a maior parte das características apontadas derivam quase exclusivamente da criatividade que, em tempos de desinformação, desenvolve convicções.

Não acho que eles, os Celtas, pura e simplesmente não tenham existido. Mas duvido que fossem o que deles se tem escrito nos últimos cem anos. Além disso, procurar as “origens” de povos pré-históricos e proto-históricos é uma luta inútil contra moinhos…

Saúde para todos.