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Tempo Livre (1999/2019), 20 anos ao serviço do desporto para todos
Tempo Livre (1999/2019), 20 anos ao serviço do desporto para todos
Manuel Silva
Quinta-feira, Janeiro 24, 2019

Amadeu Portilha, presidente da direção da Tempo Livre, dá conta, numa entrevista ao Reflexo, com entusiamo evidente, da importância da Tempo Livre nas mudanças desportivas operadas no concelho ao longo destes últimos 20 anos.

Esta régie-cooperativa, criada no tempo de António Magalhães, assinala no dia 26 de janeiro o seu 20.º aniversário, com apresentação de livro comemorativo, uma exposição e um jantar de gala, iniciativas que decorrerão no multiusos de Guimarães.

O que se pretende destacar com estas comemorações dos 20 anos de existência?
Estas comemorações servem para exteriorizar aquilo que nos vai na alma, o orgulho por um percurso longo, de 20 anos, caracterizado por muito trabalho, por muita inovação e ousadia e por muitos projetos concretizados.

Esteve na formação da cooperativa a 22 de janeiro de 1999. Que memórias ainda perduram desse tempo?
Foi um tempo de muitas ideias, muitas ambições e muitos sonhos, tempo em que Guimarães, pela estabilidade política que se vivia, foi concretizando um conjunto de necessidades básicas que o concelho não tinha. No terceiro mandato de António Magalhães, Guimarães começa a explorar novos caminhos, novas formas de se transformar numa cidade diferenciadora. Nessa altura, começou-se a trabalhar arduamente na candidatura de Guimarães a Património Cultural da Humanidade. Neste contexto, surge a necessidade de termos uma política municipal para o desporto. A Tempo Livre é o resultado da vontade de algumas pessoas, nas quais me incluo, de se alterar o paradigma da prática de desporto em Guimarães.

Desporto em Guimarães, nessa altura, só através dos clubes?
Nesse tempo, em cada 10 vimaranenses somente 2 é que praticavam desporto. A grande conquista da Tempo Livre foi, sem dúvida, afirmar o desporto informal, de recreação e de lazer, em Guimarães.

A Tempo Livre, para além dessa aposta no fomento e incentivo da prática desportiva informal, também tem à sua disposição, neste momento, um conjunto alargado de infraestruturas para gerir.
São dois eixos que se complementam e que nos têm permitido cumprir um dos nossos objetivos de sempre, que é a generalização da prática desportiva. Isto permitiu lançar projetos de fomento do desporto e atividade física na comunidade, caso das Férias Desportivas, dos Jogos da Comunidade, das Mini Olimpíadas, da Liga Mini, de saraus e atividade séniores.

A Cidade Europeia de Desporto de 2013 representou o quê para a Tempo Livre?
Foi a celebração do nível de excelência que Guimarães tinha atingido a nível do desporto. Foi um marco que nos permitiu criar “um cimento” fazer coisas importantes, dando continuidade a uma série de eventos que ainda se mantêm. Aquando da candidatura à Cidade Europeia de Desporto, procedemos a um estudo sobre as razões que levavam as pessoas a não praticarem desporto. Em primeiro lugar, surgia a falta de instalações desportivas de proximidade; em segundo lugar, a falta de espaços desportivos de mera recriação e, em terceiro lugar, serem caros os que existiam. A resposta da Câmara passou pela construção de equipamentos com preços sociais e investiu fortemente nos parques de lazer, isto chamou mais pessoas para a prática desportiva não formal.

A Tempo Livre foi embrionária de alguns clubes vimaranenses. Isso faz parte do âmbito da cooperativa?
Foi a Tempo Livre que lançou o polo aquático, a patinagem artística, o râguebi, a ginástica (o Guimagym é hoje um dos maiores clubes de Guimarães, com mais de mil atletas), o futsal feminino, modalidades que a Tempo Livre dinamizou e que, quando se tornaram sustentáveis, se constituíram como clubes, o nosso papel ficou cumprido.

A academia de ginástica foi o projeto mais arrojado da Tempo Livre até ao momento?
Só o foi porque foi o último. Hoje, esse projeto foi tão disruptivo como o foi há 20 anos a piscina ou a pista de atletismo ou o multiusos. Talvez tenha sido mais arrojada a aposta na construção do multiusos do que na academia de ginástica. António Magalhães, no livro a publicar, afirma que, nessa altura, as pessoas diziam “anda tudo doido? Isto não é megalómano?”. Passados 20 anos, temos a maior sala de espetáculos da região norte a funcionar em pleno. Estamos em janeiro e o multiusos já tem praticamente todos os fins de semana ocupados até ao final do ano. É o maior ativo estratégico que Guimarães tem neste momento, pela capacidade de atrair grandes eventos para Guimarães.

A academia de ginástica foi um ato de teimosia e de coragem. Teimosia minha, por andar a insistir nesta modalidade há anos e de coragem, por parte de Domingos Bragança, que decidiu fazer um edifício exemplar do ponto de vista da sustentabilidade.

Qual é o próximo grande “salto” da Tempo Livre?
Os dados que vão sendo conhecidos é que os portugueses praticam menos desporto, começando pelos mais jovens. A obesidade nos estudantes está a aumentar, a começar no 1º ciclo, bem como as doenças do sedentarismo. Costumo dizer que o Ministério da Saúde se deveria juntar ao Desporto para apostar mais na prevenção. Os jovens estão mais motivadas para pegarem no telemóvel do que para se juntarem numa peladinha. Críamos o Centro de Estudos do Desporto já a pensar nesta questão, começando a construir um plano municipal de promoção da atividade física e da qualidade de vida, que será apresentado a curto prazo.

Plano vocacionado para que grupos da população?
Tem de ser transversal. Recordo que nos anos 90, Guimarães era uma das regiões mais jovens da Europa. Hoje, o norte de Portugal é das regiões mais envelhecidas. Temos mais gente com 55 anos do que com menos de 18 anos.

Temos de atuar também no grupo dos menores de dez anos para começar logo no início da vida, criando hábitos mais saudáveis, sem esquecer, naturalmente, os mais idosos, para os quais até já criámos o projeto “Vida Feliz”. Temos de ter uma maior esperança média de vida, mas com qualidade.

No entanto, não se vê, por parte dos governos, uma aposta na educação física, visível, por exemplo, num Desporto Escolar pouco consistente.
O facto de a secretaria da juventude e do desporto estar integrada na Educação é um bom sinal. Não há educação sem o desporto. É evidente que o Desporto Escolar pode e deve ser melhor trabalhado, bem como as AECs, ainda muito sustentadas na precariedade dos professores. Agora, o desporto nunca foi encarado como prioridade neste país ou mesmo nas políticas municipais. A Tempo Livre foi contrariando esta realidade.

E nestes 20 anos qual o período mais negativo?
O período negro existiu entre 2012 e 2016, pela força de uma lei que não tinha sentido nenhum, que foi a lei 50/2012, que ia pondo tudo em causa, altura em que se discutiu o fim da cooperativa, porque a Câmara não podia financiar a Tempo Livre. Tivemos de recorrer ao crédito bancário durante quatro anos para conseguir sobreviver. Aqui destaco o trabalho do Aníbal Rocha nesse período, que foi um verdadeiro herói. Felizmente a lei foi alterada. [NR: nessa altura, Amadeu Portilha estava na Câmara, como vereador].

Qual o orçamento da Tempo Livre?
Cerca de 4 milhões de euros para gestão de todos os equipamentos e para os 112 funcionários (mais de 70 são professores de educação física e não são precários). A Câmara, através do contrato-programa, atribui 948 mil euros, o que significa que cerca 70% do orçamento temos de ser capazes de o realizar.

A transição da vereação para a Tempo Livre foi tranquila?
Evidentemente que sim. Posso dizer, com algum atrevimento, que regressei a uma casa que é minha. Sou funcionário da Tempo Livre desde 2002. Fui presidente da direção desde 1999/2000. Estou muito confortável e muito feliz nesta casa. Posso dizer que entre a Tempo Livre e a Câmara está tudo em sintonia, a trabalhar em conjunto.