PUB
Taipas XXI: À procura de uma identidade
Quarta-feira, Abril 7, 2004

A palavra subúrbio (de sub, proximidade e orbis, círculo ou muralha da cidade) tem uma imbricação simultaneamente geográfica (distanciamento em relação ao centro da cidade) e sociológica (correspondente a determinada mentalidade, com-portamentos e estilo de vida) geralmente com uma conotação pejorativa.

Em Portugal, os subúrbios indus-trias e/ou residenciais são fenómenos recentes devido à nossa industrialização tardia e localizada, apenas existiam arrabaldes em Lisboa e no Porto. Todas as outras cidades eram pouco populosas e assentavam numa economia rural ou numa indus-trialização que quando existia era muito arcaica, apenas com a provável excepção da Covilhã (têxteis) e de Guimarães (cutelarias e linhos).

Em Portugal desde a década de 50 e de modo mais marcante desde o início da década de 80 verifica-se uma intensa suburbanização das áreas periféricas de Lisboa, em menor escala do Porto mas também observável noutras cidades de média dimensão da província, como por exemplo Coimbra, Faro, Leiria, Castelo Branco, Guarda, Guimarães ou Braga. Implan-tam-se diversas multinacionais aproveitando a mão de obra barata do mercado português, o que faz aumentar muito significativamente a população de aglomerados suburbanos.

Uma nova fase de evolução do espaço urbano, iniciada na década de 70 e que se intensifica a partir dos anos 90, é caracterizada essencialmente por uma fase de auto-nomização de alguns desses aglomerados, baseadas no desenvolvimento de actividades -principalmente do sector terciário – geradoras de emprego que fazem com que a popu-lação autóctone não esteja tão de-pendente da cidade-mãe para adquirir bens ou serviços ou mesmo para trabalhar. Como é evidente, isto pressupõe uma concentração de população nos subúrbios, que é oriunda não só das áreas rurais ou mesmo urbanas do interior – o que evidencia um fenómeno de lito-ralização comum a praticamente todos os países europeus – como também um afluxo de imigrantes provenientes dos países menos desenvolvidos de África ou da Ásia. Assiste-se agora a um fenómeno curioso, que é a existência de movimentos pendulares em ambos os sentidos, ou seja grande parte da população das áreas peri-féricas continua a ir trabalhar para a cidade vizinha, mas já há muita gente que sai todos os dias de manhã em direcção aos subúrbios para exercer a sua actividade profissional.

A recente expansão de actividades mais diversificadas e diferenciadas nas áreas suburbanas é inerente ao próprio crescimento desses aglomerados que vão beneficiar das novas infra-estruturas que requerem muito espaço e que devido à especulação imobiliária tendem a localizar-se preferencialmente nas áreas periféricas, desde as grandes superfícies comerciais, aos centros/pólos tecnológicos com os respectivos campus universitários ou mesmo as novas infra-estruturas rodoviárias como sejam as áreas de serviço ou os parques de estacionamento.

Sob um ponto de vista essencialmente sociológico, podemos dizer sem receio de errar que os subúrbios são das zonas mais complexas que existem em termos de objecto de estudo, quer devido à miscigenação da população, quer à sua divisão em grupos étnicos ou sociais muito fechados com regras comportamentais muito próprias, que não admitem estranhos (por ex. comu-nidades de ciganos ou de imigrantes provenientes dos PALOP’S).

A própria morfologia urbana é mais das vezes o reflexo dessa falta de identidade, predominando os prédios de modelo único.

No entanto, a formação das periferias pode dar-se de uma forma menos organizada. Em vez de ser por intervenção estatal pode a iniciativa individual tomar a dianteira – facto muito comum numa economia liberal de mercado – e tentar rentabilizar ao máximo estes espaços periféricos onde os lucros com a especulação imobiliária são sempre chorudos, mas claro está que beneficiam aqueles que têm maior poder de antecipação, pois o espaço para urbanizar é raro e a concorrência tende a tornar-se feroz.

Os subúrbios estão longe de ser uma área homogénea … mas como defini-los ? Não existe unanimidade entre os autores sobre o conceito a adoptar, muito antes pelo contrário, a maioria das opiniões acusam uma disparidade entre si, confundindo subúrbios com periferias ou então trocando as definições entre ambos. Parece-me pois, em face do exposto, que a definição mais correcta de subúrbio tem acima de tudo a ver com um conceito sociológico, isto é, onde de uma maneira geral residem pessoas excluídas socialmente ou de horizontes sem perspectivas ,”le mal de vivre dans les banlieus “ em que existe uma pauperização das pessoas; enquanto que o conceito de periferia é muito mais geográfico, tem a ver com a distância ao centro da cidade, o que significa que o que caracteriza as periferias é acima de tudo a existência de movimentos pendulares.

As soluções para tornar os su-búrbios mais humanos passam funda-mentalmente pelas seguintes estra-tégias:
• Municipalização das rendas habitacionais e expropriação/compra de terrenos por parte da Câmara para atenuar a especulação imobiliária;
• Iniciativas dos próprios moradores coadjuvados pelas autarquias para a implementação de infra-estruturas (centros de apoio a idosos, jardins de infância, recintos desportivos, zonas verdes, escolas, centros médicos);
• Programas de reabilitação social / acompanhamento de imigrantes, idosos ou outros excluídos socialmente;
Controlo da densidade populacional nessas áreas não permitindo a construção em altura a partir de certos parâmetros.

O aglomerado de Caldas das Taipas
A freguesia de Caldelas onde se situa o aglomerado urbano de Caldas das Taipas, estrategicamente situado num cruzamento de estradas, com uma situação excelente, quase de charneira entre Braga e Guimarães, foi povoada desde tempos imemoriais visto existirem vestígios de pequenos castros nas serranias das redon-dezas de povos autóctones anteriores aos próprios Lusitanos.

Data do segundo quartel do século XIX a implementação de algumas infra-estruturas (que em muito vieram beneficiar a população residente no lugar de Caldelas). Referimo-nos às carreiras regulares de diligência (186..) entre Braga e Guimarães através da estrada real nº 27 (cons-truída entre 1864 e 1867), à instalação da rede telegráfica (1878), bem como à abertura das primeiras instalações hoteleiras (Hotel Braga e Pensão Villas). No início do século XX o Estabelecimento Termal da Vila das Taipas foi dado de arrendamento a José Antunes Machado, que entretanto o cedeu em 1910 à Empresa Termal das Taipas que logo no ano seguinte inaugura novas instalações termais, conhecidas por Banhos Novos com infra-estruturas des-tinadas a banhos de imersão, duches, inalações, irrigações e massagens. Data relevante para o fomento do turismo termal nas Caldas das Taipas é o ano de 1915 em que se inicia a construção do Hotel das Thermas, só concluído em 1924.

Seja como for, o certo é que entre 1930 e 1960, apogeu da actividade termal, funcionavam na Vila uma unidade hoteleira com excelentes condições- de que era frequentador assíduo o escritor Ferreira de Castro que aqui vinha repousar – para além de duas ou três residenciais – pensões de mediana qualidade. Constrói-se a piscina e os campos de ténis (1958).

A análise da evolução demográfica até aos inícios do século XX permite-nos deduzir que não haveria nenhum factor específico que fixasse aqui a população. Apenas a partir da década de 30 o crescimento se torna mais significativo, o que está relacio-nado com o desenvolvimento do turismo termal e, um pouco mais tarde. com a industrialização. Esta não seguiu o modelo clássico do Vale do Médio Ave onde a povoação está implantada: referimo-nos especialmente ao desenvolvimento do ramo das cutelarias que têm fama internacional ;se bem que nos últimos anos têm surgido novas fábricas, as mais das vezes ligadas às confecções e malhas do que propriamente aos têxteis.

Nas duas últimas décadas, o crescimento demográfico verificado na freguesia de Caldelas, princi-palmente na Vila das Caldas das Taipas (denominação que ostenta desde 1940), deve-se não tanto à industrialização mas à expansão de serviços privados e de actividades comerciais que, por sua vez, se são um dos reflexos da suburbanização do aglomerado, também denotam uma certa autonomia funcional face aos aglomerados vizinhos.

A dificuldade em conseguir habitação em Guimarães, onde o preço dos alojamentos é proibitivo, levou a que muita gente optasse por se fixar aqui, com a inerente especulação imobiliária e o surgimento num ápice de construções em altura, a dois passos da cidade de Guimarães e não muito longe de Braga, que constituem locais de população trabalho e de lazer para a população Taipense, o que aliás está bem expresso pela intensidade de tráfego registada no eixo Braga – Taipas -Guimarães.

Conclusão
Caldas das Taipas é bem a expressão do que constitui nitidamente um aglomerado com características suburbanas situado na periferia de uma cidade importante. Destacam-se os movimentos pendulares, o crescimento rápido da construção em altura sem uniformização e geralmente de qualidade inferior em que a estética deixa muito a desejar, bem como a da falta de infra-estruturas necessárias ao bem-estar da população. No entanto, adquire uma feição própria que lhe dá um certo carácter e permitem distingui-la nitidamente dos outros aglomerados satélite de Guimarães. Referimo-nos à actividade dinamizadora que constitui o termalismo, que se traduziu na existência de unidades hoteleiras em requalificação a par de moradias uni-familiares dos primeiros decénios do século XX. Há outros indicadores marcantes, como a existência no próprio espaço construído de “caminhos velhos” e de áreas de absoluta ruralidade, que aliás se acentuam nas freguesias circumvizinhas.

Mais pertinente do que discutir se o aglomerado se classifica como suburbano ou vila integrada e dotada do seu espaço próprio, fica por questionar se uma população que na maioria não se identifica nem se revê no espaço que é suposto habitar, terá capacidade e vontade para potencializar as sinergias existentes, capazes de tirar Caldas das Taipas do marasmo sócio-cultural em que caiu.