Surma: “Portugal tem crescido a olhos largos, não só na música”
Surma: “Portugal tem crescido a olhos largos, não só na música”
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Quinta-feira, Junho 14, 2018

Surma é o nome que Débora Umbelino escolheu para designar o seu projeto musical e visual. Lançou um dos melhores discos de 2017. Faz parte de uma dinâmica músical com epicentro na cidade de Leiria e que tem conquistado emoções um pouco por todo o lado – dentro e fora de Portugal. Este mês, no dia 15, toca nos Banhos Velhos.

Das tuas experiências anteriores ligadas à música, desde cantar num coro de igreja ou estudar jazz e improvisação, o que é que mais vertes para o teu alter-ego Surma?
Acho que a junção de toda a aprendizagem diferenciada que tive ajudou-me imenso para a produção e estruturação das músicas em si! Ajudou-me a crescer e a solidificar as ideias iniciais que tinha. O coro de igreja fez com que aprendesse imenso a harmonizar e a tocar guitarra (parecendo que não, aprende-se muito lá) e a parte do Jazz e improvisação fez com que me sentisse mais eu e que pudesse ser quem quisesse logo que começasse a tocar algo! É um sentimento de liberdade extrema.

Fizeste algumas coisas com os Backwater and The Screaming Fantasy (que deram origem aos Whales, também de Leiria). Precisavas de espaço para criar a tua própria música?
Posso dizer que sim, queria um caminho diferente daquilo que eles queriam seguir! Gostava e queria coisas diferentes, foi por essa mesma razão que decidi sair. Considero-me um bocado bicho do mato no que toca ao trabalho, gosto muito de estar no meu próprio mundo quando estou a produzir ou até mesmo em coisas básicas de rotina. Sempre fui uma pessoa um pouco perfeccionista demais e gosto sempre de fazer as coisas a meu gosto! Sou de ideias fixas.

Optaste por vocalizos abstratos, não escreves letra para as músicas. Sentiste que a música era suficiente para transmitir aquilo que desejavas?
Não temos que ter uma letra obrigatoriamente para criar uma ligação própria com as pessoas, falando por mim, não senti a necessidade de fazer uma letra só porque sim (até porque nem me considero muito boa letrista), decidi arriscar pelo caminho fonético e explorar mais essa parte da voz nesse registo! Uso-a como se fosse, por exemplo, uma guitarra. Pretendo criar uma ligação muito própria entre mim e as pessoas que me ouvem, dando elas mesmo uma interpretação só delas para cada música.

Tens tocado muito fora do país. Tens noção que os horizontes para a música portuguesa se têm alargado naturalmente ou haverá mais atenção sobre o que se faz por cá?
De ano para ano, Portugal tem crescido a olhos largos, não só na Música mas também no Cinema, Artes Plásticas, Dança… as pessoas têm dado mais valor ao que se faz cá dentro! Pelo que vejo lá fora, as pessoas têm muita curiosidade no que se faz em Portugal e apoiam mesmo muito, estão focadíssimas naquilo que estás a fazer! Em Portugal temos a mania de pensar que o que se faz lá fora é que é bom, quando vais tu lá fora o pensamento é totalmente o oposto, no estrangeiro pensam completamente o contrário, querem ouvir coisas novas e de países diferentes! Ainda assim, acho que temos mudado muito a nossa mentalidade, estamos mais abertos e receptivos a coisas mais fora da caixa! E tenho visto isso pelo apoio enorme por
parte da malta!

Como chegaste até ao Eduardo Brito (que é de Guimarães) para realizar o vídeo para Maasai?
Cheguei ao Brito por parte do Hugo Ferreira (Omnichord Records), são grandes amigos desde miúdos e estudaram juntos em Coimbra. Já se conhecem há imenso tempo, assim que a Maasai ficou acabada o Hugo liga-me todo feliz a dizer “O que achas de irmos gravar a Maasai à Bélgica, em Doel, com o Brito” eu fui sincera e disse que não conhecia o trabalho dele, fui pesquisar e fiquei rendida no primeiro segundo! Aceitei logo a ideia louca e lá fomos nós para a Bélgica, conhecemo-nos à saída do aeroporto e foi logo uma química de amizade incrível! Foi um prazer e uma honra enorme em trabalhar com ele. Até hoje…ficámos grandes amigos!

Esse tema ficou fora do disco. É um tema diferente com um beat mais presente e definido e a voz mais solta de efeitos. A estética do disco fugiu-te para outro lugar, ao ponto de Maasai te parecer desenquadrado do resto do alinhamento do disco?
Exactamente. Não senti que a Maasai fizesse parte da linha que queria seguir com “Antwerpen”. É uma musica muito importante para mim, foi a primeira música que construí enquanto Surma mas não sentia que se enquadrava no ambiente atmosférico do álbum e cortava imenso a “história” que quis criar! Agora, está muito mudada.

Tens uma componente visual muito forte, quer nos vídeos, nas sessões fotográficas, quer na tua própria apresentação em palco. É algo em que pensas juntamente com a música?
Sem sombra de dúvida, sempre liguei muito à parte visual! É algo forte e está a passar-se algo mais do que somente a música! “Os olhos também comem” não é uma expressão por acaso! Desde o início de Surma que quis apostar muito na imagem minimal e “clean” mas ao mesmo tempo muito forte e impactante à primeira vista. Unindo tudo cria um contraste muito interessante. Talvez ainda este ano haja novidades no que toca a umas coisas a acontecer a 3D.

Primeiro disco e tocas no SXSW e mais recentemente no Airwaves Music Festival, entre outros… Como descreves isso, Portugal ficou demasiado pequeno para ti, de repente?
[Risos] Nada disso! Portugal será sempre ENORME para mim. Tenho tido a maior sorte deste Mundo, as pessoas têm-me apoiado mesmo muito e a palavra tem passado tão bem que não tenho palavras para descrever o sonho que estou a viver neste momento! Sem a Omnichord Records e sem o Hugo Ferreira não era nada, estamos a trabalhar mesmo muito para tentar internacionalizar ao máximo o que se faz em Portugal e o Hugo tem sido como um segundo Pai para mim! Ajudou-me a crescer imenso enquanto música e enquanto pessoa dentro deste Universo! Só tenho a agradecer todo o apoio que tenho tido desde o inicio do projecto!