Sr. Doutor, queria fazer análises gerais!
Quinta-feira, Abril 27, 2017

Este é, certamente, um dos principais motivos que leva os utentes a consultarem o seu médico de família. Tal acontece porque parece existir uma crença, enraizada na nossa população, quanto à necessidade de fazer análises de rotina ao sangue e à urina, todos os anos.

Um estudo recente mostrou que 99,2% dos portugueses, adultos, considera que deve fazer análises, anualmente. Este estudo mostrou, ainda, a importância que os utentes dão à realização de exames para prevenção e diagnóstico de eventuais problemas de saúde, não valorizando tanto o aconselhamento e as recomendações do médico sobre estilos de vida saudáveis, como perder peso, comer de forma saudável, reduzir o consumo de bebidas alcoólicas e deixar de fumar. No mesmo estudo ficou patente que o grau de importância que as pessoas dão à realização de análises de rotina, é muito semelhante entre as que sofrem de alguma doença crónica e as que não têm qualquer doença e sem fatores de risco!

As doenças cardiovasculares, como o enfarte de coração e o AVC (Acidente Vascular Cerebral, ou trombose/hemorragia do cérebro) são as principais causas de morte em Portugal. Os fatores de risco mais importantes para este grupo de doenças são o excesso de peso, o tabagismo, o consumo abusivo de álcool, a inactividade física, comer refeições com grande teor em gordura, sal e açúcar, e o stress. Todos estes factores, caro utente, são comportamentos e estilos de vida modificáveis, isto é, só dependem de si para os mudar e com isso prevenir aquelas doenças.

Posto isto, será mais importante fazer análises ou mudarmos os nossos comportamentos de risco, que podem prejudicar gravemente a saúde?

Atualmente existem estudos científicos que mostram que fazer análises gerais e exames de rotina não reduzem o risco de morte por doenças cardiovasculares ou por cancro. Por outro lado, esses exames podem aumentar o número de diagnósticos desnecessários, de doenças que não iriam causar qualquer problema. Por exemplo, se no decurso da realização de uma ecografia abdominal o radiologista, por curiosidade, der uma vista de olhos aos rins e detetar um quisto simples, vai referi-lo no relatório. Pois isto será suficiente para muitas pessoas ficarem preocupadas e quererem fazer uma ecografia renal, todos os anos, “para ver se o quisto cresceu”. E este quisto, caro leitor, não tem importância nenhuma e não será por causa dele que deixará de viver até aos 100 anos, mesmo que ele continue a aumentar de tamanho. O mesmo se aplica a muitas “sombrinhas” nos pulmões e à ideia de quererem repetir radiografias para ver se elas ainda lá estão… Consequentemente, caro do leitor, os “quistos” e as “sombras” só vão aumentar a sua preocupação, desnecessariamente. Como vê, teria sido melhor nem deles ter tomado conhecimento. Além disso, os exames de diagnóstico, apesar dos benefícios, poderão provocar complicações. Seguramente já terá ouvido falar que fulano fez uma perfuração do intestino no decurso de uma colonoscopia (exame ao intestino). Já para não falar do grande impacto económico, devido aos custos da realização dos mesmos.

Esta noção, errada, de que “quanto mais melhor”, ou seja, quantas mais análises e exames o utente fizer, mais protegido e vigiado está, é global na nossa população, desde os mais jovens até aos idosos. Criam a falsa ideia que estão em boa saúde, esquecendo-se de medidas mais importantes, como o simples facto de fazer exercício físico ou comer de forma saudável. É recorrente, por exemplo, um fumador querer fazer uma radiografia aos pulmões, “para ver como está” e não se preocupar minimamente em deixar de fumar, esta sim uma decisão que beneficiaria em muito a sua saúde. Esta radiografia não tem interesse nenhum e, de valor para a sua saúde (e carteira), seria deixar de fumar. Outra situação curiosa, e também muito frequente, é a dos utentes com consumo excessivo de álcool. Estes raramente admitem que têm um problema de saúde, dando mais valor à realização de análises de sangue e exames (como por exemplo uma ecografia ao fígado), do que deixar de beber. Dá que pensar…

Em conclusão, é importante que fale com o seu médico de família sobre as suas preocupações, medos e queixas. Será com base nelas e depois de o/a examinar, que ele tomará decisões, as apresentará e que deverão partilhar/discutir. E não se esqueça, mais importante que fazer análises, é mudar os estilos de vida, que só dependem de si, como ir a pé para o trabalho, reduzir a quantidade de sal e de açúcar nas refeições, diminuir o consumo de álcool e deixar de fumar.

Amigo é aquele que nos diz o que, às vezes, não nos agrada ouvir. Se acontecer ouvir um não às suas pretensões, isso poderá ser o melhor para si.

Virgínia Rodrigues
Médica Interna de Medicina Geral e Familiar na USF de Ronfe