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Sobre um fragmento de capacete de bronze, encontrado em 1953
Quinta-feira, Fevereiro 11, 2021

Foto: Sociedade Martins Sarmento

A discussão sobre os raros vestígios de armas recolhidos em antigas fortificações, tem já muitos anos. Debate-se mesmo a real funcionalidade de sítios fortificados, tendo em conta o escasso material encontrado que possa ser identificado como armamento, entre os que postulam que muitas fortificações não teriam uma real função defensiva, e os que defendem que a “inclemência” dos solos pode ter feito desaparecer a maioria destas peças. Uma das razões para esta raridade pode ser, com certeza, o natural reaproveitamento destes materiais. Acontece isto para os castros, castelos, fortes, abrangendo, portanto, um vasto leque cronológico. E, tal como noutras tipologias de vestígios, quanto mais recuamos no tempo, mais raros são os indícios.

Em Outubro de 1953, um grupo de vinte operários, coordenados por Mário Cardozo, realizava mais uma campanha anual de escavações e restauros na Citânia de Briteiros, dentro da acrópole do povoado, no interior da primeira muralha. Cardozo anotou então a recolha de uma peça invulgar “…entre os despojos de bronze, surgiu um curioso fragmento, muito forte e pesado, com a espessura de 4 a 5 milímetros, ornamentado numa das faces com sulcos horizontais bastante fundos, e outros transversais, contornados por linhas onduladas e pequenos círculos. Faz lembrar o fragmento da pala de um capacete de bronze, semelhante ao que há anos apareceu no Monte da Senhora do Pilar, da Póvoa de Lanhoso, magnífico e raro exemplar que, até hoje, apesar de encontrado há bastantes anos, ainda não deu entrada num museu público, infelizmente!“*

Na última frase, Mário Cardozo referia-se a um capacete inteiro, proveniente do referido monte, e que hoje, felizmente, se encontra num museu público, o Museu D. Diogo de Sousa.

Estes cascos metálicos eram então, como quase tudo o que se encontrava nos castros, designado como “céltico”, embora sejam hoje referidos como de tipo Montefortino, referência a uma necrópole no Município de Arcevia, em Itália, onde primeiramente foram identificados. Fazendo lembrar os reluzentes capacetes prussianos, tornaram-se mesmo, para os nossos lados, numa imagem de marca da Cultura Castreja, pese embora a sua generalização, com variações morfológicas e decorativas, um pouco por toda a Europa Ocidental. Aliás, o capacete típico dos legionários romanos, a galea, pode ser uma evolução desta tipologia.

Os evidentes paralelos decorativos com a cerâmica castreja, nomeadamente os círculos estampados, podem denunciar o fabrico local deste fragmento, que não será uma viseira, mas antes uma pala de proteção da nuca. É, até agora, o único vestígio de um capacete encontrado na Citânia.

* Mário Cardozo, 1953, “Escavações na Citânia de Briteiros. Relatório da 21ª campanha”. Revista de Guimarães, p. 715.

Desenho: Armando Coelho Silva