Sobre o vazio (II)
Quinta-feira, Março 29, 2018

Um dos meus mais velhos e queridos amigos tem uma frase preciosa a que recorre frequentemente quando o assunto de que falamos parece já não ter solução: “É deitar abaixo e fazer de novo”. Como muitas outras frases que ele tende a repetir, esta tem igualmente um belo efeito provocador e algo iconoclasta – qualidade que ambos muito admiramos.

O princípio de “deitar abaixo e fazer de novo” ou, simplesmente, de “fazer de novo” é, porém, particularmente crítico quando estamos a falar de uma cidade. A decisão de um investimento em construção nova deve ser especialmente parcimoniosa, não só pela necessidade de serem mobilizados recursos financeiros, mas sobretudo pelo impacto que uma nova construção – e o processo de construção em si – tem sobre o território.

Talvez algum leitor esteja a imaginar que com isto quero chegar ao tema da construção do parque de estacionamento no quarteirão das ruas de Camões e da Caldeiroa, relativamente ao qual já por diversas vezes manifestei nestas mesmas páginas e noutros espaços a minha veemente oposição.

O que escrevo vale, é certo, para esse caso em concreto, da mesma forma como se aplica a outras obras públicas. E também ao investimento privado. Talvez não tenha suficientemente claro no texto anterior quando expus a ideia de que é necessário uma discussão mais alargada sobre os investimentos em construção nova na cidade e no uso a dar a edifícios abandonados ou quarteirões vazios.

Sublinho aqui que esta discussão não tem que implicar apenas os actores públicos, mas igualmente os privados, dado que eles são – e não advogo que devam deixar de ser – os maiores proprietários na cidade. Interessa, pois, é encontrar um novo equilíbrio entre os legítimos interesses privados e os superiores interesses colectivos.

Ainda assim, admito que escrevo este artigo com a imagem pungente de um quarteirão a ser dizimado em mente. Isso não tem deixado de me inquietar. E uma vez tenho andado a notar os vazios urbanos, pergunto-me: admitindo que o parque é realmente necessário, não faria mais sentido encontrar uma solução que permitisse dar um outro uso a um edifício ou quarteirão devoluto, em lugar de construir de novo – e ainda por cima em terreno sensível?

Não precisaríamos sequer de ir demasiado longe para encontrar dados para acentuar a inquietação. A escassas dezenas de metros do terreno que está a ser usado para a construção desse parque existem duas soluções que são paradigmáticas das questões que têm suscitado esta minha reflexão.

De um lado da avenida D. Afonso Henriques, a antiga fábrica Jordão, nas traseiras do teatro com o mesmo nome. Um parque de estacionamento em potência, com muito menos investimento em betão, e à mesma distância do Toural; do outro lado da avenida, todo um quarteirão que corresponde, grosso modo, à antiga fábrica do Arquinho. Bem sei que o terreno é privado e apetecível para investimentos imobiliários. Mas pela sua localização, o seu futuro deve merecer uma discussão pública. Isso será, porém, matéria para outro texto.