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Sobre o vazio (I)
Quinta-feira, Março 1, 2018

Em Março de 2009 – não tenho uma memória prodigiosa, tive que recorrer ao arquivo do blog que mantinha na altura – começaram a surgir nas paredes da cidade umas inscrições feitas a stencil onde se lia “Vazio”. A intervenção, cujo autor ou autores continuo a desconhecer, foi feita nas fachadas de edifícios industriais ou de habitação sem uso e a merecerem atenção. Sublinhava-se assim um problema de abandono do património imobiliário no centro de Guimarães que era, por esses dias, evidente.

A dinâmica de investimento no centro da cidade suscitada, pelo menos parcialmente, pela Guimarães 2012 permitiu encontrar um novo uso para vários desses espaços, sobretudo habitações e espaços míticos como a antiga Pensão Imperial. Todavia, quem percorrer a pé algumas ruas centrais encontrará ainda vestígios dessa intervenção – invariavelmente fora do perímetro amuralhado – o que quer dizer que o assunto não está resolvido.

Na cidade permanecem vazios urbanos à espera de maior atenção e um novo uso. Muitos deles com dimensões impressionantes e localizações privilegiadas. Estou certo que, alguns desses edifícios, podiam perfeitamente ser soluções mais interessantes para investimentos públicos anunciados ou em execução por estes dias. É sobre isso que me proponho reflectir neste artigo e nos próximos que escreva – daí a numeração no título.

A maior atenção sobre Guimarães nos últimos anos – que depois de uma acalmia pós-CEC, dá sinais de regressar com alguma força num momento de recuperação económica de todo país – teve um impacto, sobre o qual já escrevi, no mercado de habitação local. Hoje, quer o mercado de arrendamento quer o da aquisição estão fortemente inflaccionados, com efeitos perversos na cidade. Defendo que os poderes públicos deviam ter uma palavra a dizer e uma intervenção mais directa nesta matéria, como já escrevi em diversas ocasiões.

No mesmo sentido, entendo que é papel da autarquia e dos vários actores políticos reflectirem, pronunciarem-se, debaterem as questões dos vazios urbanos. Acima de tudo na óptima de discutirmos o que pretendemos, enquanto comunidade, fazer com eles. Sejam quarteirões apetecíveis para investimentos imobiliários, fábricas abandonadas ou os centros comerciais de primeira geração.

Não basta a uma autarquia e aos poderes públicos refugiarem-se na justificação de que estes são espaços privados – a esmagadora maioria são-no, de facto. Também não estou a propor que a câmara ou outra entidade do Estado compre todos os terrenos, tome todos os edifícios.

O que defendo é que, enquanto representantes de uma comunidade, os responsáveis políticos devem pronunciar-se sobre esta matéria, colocar à discussão estas opções. Porque transformar uma fábrica abandonada numa outra coisa, por exemplo, ou abrir um quarteirão ao investimento imobiliário tem um impacto para quem ali vive, trabalha ou passa, que não pode ser apenas decidido tecnicamente e em gabinetes. Este é um assunto de todos e, por isso, político. Estes são temas para ser discutidos.

Quando reli o que publiquei em 2009 no meu blog a propósito do “Vazio”, sorri. Escrevia então “Quanto a mim, deve ser um dos temas mais fortes da campanha para as autárquicas”. Era 2009 e eu era tão ingénuo. Parece que não aprendo.