Sobre a privatização da paisagem
Quinta-feira, Maio 2, 2019

Escrevo esta crónica tendo em mente uma imagem fixada a partir do Caminho Real, na Veiga de Creixomil. Mas podia ser a partir do Campo da Feira. Ou da estação de caminhos-de-ferro. De qualquer lugar da cidade de onde possa observar-se o monte da Penha, a perspectiva, por estes dias, é igualmente desoladora. O totem vimaranense está a ser escavacado. E isso é um crime – mesmo que seja feito dentro da lei.

É mesmo essa a expressão: a Penha está a ser escavacada. Nos últimos dois ou três anos, não há momento nenhum em que não se olhe o monte sem que se vejam reflexos do avanço imparável de maquinaria que arrasa árvores e abre brechas na paisagem. É certo que, tempos depois, lá aparecem no lugar onde antes havia uma mancha verde, uns caixotões que uma classe endinheirada – e esteticamente iletrada – torna casa. Olhar (ou subir) a Penha tornou-se um exercício constante de desolação.

Escavacar. Não por acaso, volto a uma palavra que já tinha usado a propósito do processo do “monstro da Costa”. Os dois assuntos têm muito em comum. São ambos resultado de um mesmo momento da política vimaranense, em que os negócios imobiliários determinaram a autorização da construção de uma muralha de betão ordinário envolvendo o centro da cidade extraordinária. São ambos também fruto de um entendimento de que só os ricos têm direito a usufruir de beleza. O que está a acontecer com a Penha – como noutros lugares, um pouco por todo o lado – é uma privatização de algo que era de todos. Neste caso a paisagem.

Não nos esqueçamos que é na Penha também que se situa um dos processos mais escandalosos dos últimos anos. Uma quinta de casamento para as classes abastadas foi considerada ilegal pelo Governo, por ocupar com construções terrenos que são Reserva Ecológica Nacional. Por duas vezes, a tutela deu ordem de demolição. Todavia, o assunto resolveu-se com uma legalização à posteriori decidida pelos políticos locais (todos, já que a decisão foi aprovada por unanimidade).

Só a crise – que impôs cautela aos especuladores e investidores – atrasou muitos dos projectos que agora escavacam a paisagem da Penha. No momento em que o mercado imobiliário e de construção voltou a acelerar, os resultados dos velhos erros políticos e de planeamento urbano ressurgiram em toda a sua força.

Há cerca de uma década, estive envolvido, como assistente de investigação, em dois projectos, coordenados pelo sociólogo da Universidade do Minho Albertino Gonçalves, que se debruçavam sobre a identidade vimaranense. Recordo claramente o peso determinante que a Penha tinha nos discursos das pessoas: A Penha como lugar de refúgio. A Penha como primeiro marcador de Guimarães quando à cidade se regressava.

A Penha assume um carácter de totem no imaginário colectivo local. Como no totemismo, este ocupa um lugar sagrado para a comunidade. A Penha é, por vários motivos, sagrada para os vimaranenses. Para todos. Devia também ser sagrada para quem gere o território.

Ainda que as decisões legais que permitem a concretização este crime tenham sido tomadas no passado, quem hoje decide não pode limitar-se a escudar-se na legalidade. A política é também moral. Ou então, Guimarães hoje é apenas um pouco como Cuba: Castro já não está no poder, mas Castro ainda está por todo o lado.