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Sobre a mobilidade
Quinta-feira, Janeiro 16, 2020

Notícia do início do ano: o Parque de Estacionamento de Camões passou a ser gratuito nos primeiros 30 minutos para os seus utilizadores. Leitura evidente: Meio ano após a sua inauguração, o Município assume o falhanço do investimento. Não foi por falta de aviso.

O parque não resolveu nenhum dos problemas que nos garantiam que viria resolver. Aliás, estes não estavam sequer convenientemente identificados. Se o parque fosse efectivamente uma necessidade – capaz de justificar um investimento de mais de 5 milhões de euros e a destruição de um quarteirão no centro da cidade – teria uma utilização elevada desde a sua abertura. O facto é que não teve.

E não teve porque, desde logo, não há uma necessidade urgente de mais estacionamento no centro da cidade, mas sobretudo porque quem decidiu o investimento ignorou que aquilo de que se queixavam comerciantes e alguns utilizadores do centro da cidade é um problema de cultura e não de estacionamento.

Evidentemente, o parque de Camões continua a parecer longe para quem prefere enviar a viatura à porta do sítio onde quer entrar. Também continua a ser confrangedor percorrer o centro da cidade durante o dia e perceber a facilidade com que se deixam automóveis em cima do passeio ou em zonas de cargas e descargas com o beneplácito das autoridades.

Voltemos ao parque e ao seu uso. Ou à falta dele. A isenção de 30 minutos anunciada agora pela empresa municipal que gere o equipamento só veio confirmar o que já sabíamos: o parque está sub-utilizado.

Os últimos dados oficiais são do final de Novembro e demonstram-no. Em média, há 324 automóveis diários no Parque de Camões. Ou seja, o parque, que tem cerca de 400 lugares, não enche uma única vez ao longo do dia. Tendo este uma localização central – e, diziam-nos, privilegiada, o que justificava a sua construção – é pouco. Muito pouco.

Sem números que me apoiar, reconheço porém, pela experiência de utilização e vida na cidade, que há hoje um número superior de automóveis em circulação em Guimarães. Nota-se pelo nível de utilização de alguns parques e pela facilidade com que o trânsito se complica em locais outrora tranquilos. E isso leva-me à segunda parte desta reflexão.

É impossível pensar o estacionamento no centro da cidade de forma desligada da mobilidade não só de todo o concelho, mas também da região – nunca nos esqueçamos que estamos num território com particular facilidade de circulação de pessoas por motivos de trabalho e de lazer. E para a mobilidade continua sem existir uma visão política.

Não precisamos de ir mais longe para percebê-lo. Ainda que não tenha conseguido estar presente no debate organizado, na passada sexta-feira, pela Associação de Jovens Empresários de Guimarães sobre o tema, percebo das notícias dos jornais e dos ecos que tive da parte de quem nele participou, que os dirigentes políticos locais continuam incapazes de ter uma visão clara e de futuro sobre o assunto.

O presidente da câmara anunciou que o Quadrilátero Urbano está a estudar a mobilidade na região. Alguns jornais correram atrás da suposta novidade. Ora, o Quadrilátero tem anunciado, sucessivamente, desde 2012 este estudo. E até hoje continuamos esperando conclusões.

O tema foi um dos que marcou decisivamente a campanha, por conta dos debates entre os candidatos a presidente da câmara. Foi muito provavelmente o assunto mais discutido nos debates televisivos e radiofónicos. Dois anos e meio depois, pouco ou nada mudou.