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Sobre a democracia que não o é
Quinta-feira, Julho 9, 2020

Por estes dias a Taipas Turitermas conheceu a nova presidente da direcção, a segunda em 6 meses, depois da saída (in)tempestiva do vereador Ricardo Costa, por razões comentadas à boca pequena, e que, um dia quando todos os intervenientes já lá não andarem, a História tratará de explicar.

Mas, desta vez, não escrevo para alertar sobre a má gestão da Turitermas, ou sobre a instrumentalização da cooperativa municipal ao serviço dos interesses político partidários do Partido Socialista de Guimarães. A Turitermas é só mais uma metástese no cancro que é a gestão socialista no nosso concelho.

Diz-nos este artigo do Reflexo, em tom de curiosidade, que a vereadora Sofia Ferreira, que agora assume a presidência da Turitermas é filha de Manuel Ferreira, antigo Presidente da Câmara de Guimarães, que em 1985 criou a Régie Cooperativa e assumiu a sua presidência. É de facto curioso que, 35 anos depois, a filha herde a gestão de uma empresa Municipal criada pelo pai.  Mas será que, no nosso país, este facto é assim tão curioso? Se olharmos para os cargos políticos e a gestão da coisa pública em Portugal, desde o início da democracia em 1974, e até antes dela, veremos que os rostos e, acima de tudo, os sobrenomes de família, não variam muito.

Se é compreensível que o filho de um carpinteiro seja carpinteiro, ou que o filho de um advogado seja advogado, esta lógica não pode ser  tão linear nos cargos políticos, a não hereditariedade do poder é um dos princípios que diferencia a democracia da monarquia.

Dirão os defensores do regime: mas as pessoas são eleitas, logo é uma democracia. Falso. Importa, pois, perceber como é o acesso ao direito de ser eleito. E este não é universal, é  vedado à maior parte dos portugueses por uma regulamentação que protege e privilegia os partidos políticos existentes, ao mesmo tempo que cria imensas dificuldades ao aparecimento de novos partidos.

É famosa uma frase do fundador da Ford que diz que podemos escolher a cor que quisermos para o carro, desde que seja preto. Assim é também com os nossos governantes, podemos escolher os que quisermos, desde que sejam os escolhidos pelo partido. E quem manda nos partidos? As cúpulas dos partidos são as mesmas desde a sua criação e resumem-se a um círculo de pessoas restrito, com ligações comuns e próximas, o que ajuda a perpetuar os privilégios. Uma lógica que se repete na cadeia hierárquica, das distritais às concelhias. A tentativa de assassinato político a que assistimos ao vereador da câmara de Guimarães, que ousou candidatar-se à distrital, ilustra como funciona o poder em Portugal.

A democracia em Portugal é uma mesa onde muito poucos têm lugar, ao povo, cabe a função de os servir e sustentar. E, a bem da verdade, diga-se que aqui a diferença entre PS e PSD é apenas na intensidade. O compadrio e o nepotismo são em maior número e mais explícitos no partido socialista, que não mostra qualquer pudor nessas práticas assumindo-as como normais e naturais tal é o seu enraizamento. Cómico, senão trágico, é o facto de, e apesar destas práticas, continuar a  autodenominar-se como partido de esquerda (o que é a esquerda afinal?)!!

O facto que Reflexo apelida de curioso, é assim o retrato de uma democracia que não o é, de um estado que não é de direito, de uma sociedade que não é coesa nem equitativa, de um povo que vive condenado a gritantes desigualdades sociais, e a um regime que privilegia muito poucos em detrimento de muitos. Curioso, para mim, é a falta de sentido crítico e a inércia de um povo que se conforma com um sistema tão injusto.