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Sete anos depois, uma sensação doce e amarga
Quinta-feira, Fevereiro 7, 2019

Há dez anos escrevi no jornal Público um conjunto de artigos para o extinto suplemento Cidades com os quais procurávamos dar a conhecer aquilo que poderia vir a ser Guimarães em 2012. Cito de memória, mas lembro-me de ter começado o primeiro desses textos com esta ideia: há um número na boca dos vimaranenses – 2020 – e isso até pode ser estranho se tivermos em conta que a cidade é Capital Europeia da Cultura em 2012.

Não era nada estranho. Olhar para 2020 era uma ideia-chave do tempo que então vivíamos: 2012 era parte de um processo. Isso queria dizer que, por um lado, o ano da CEC servia para acelerar um projecto cultural que vinha sendo implementado desde os anos 1990. E que, por outro, os seus frutos futuros eram mais importantes do que o evento ou a celebração em si.

Estamos a um ano desse momento. E é tempo de começar a preparar um balanço – que, imagino, há-de ser feito de forma oficial. Entretanto, tenho reflectido bastante sobre a ideia de que 2020 era o ano em que entenderíamos realmente o que a Capital Europeia da Cultura deu a Guimarães. Hei-de fazer essa análise com mais propriedade ao longo dos próximos meses. Este é um primeiro texto acerca do tema – e é feito de impressões.

É um texto sobre a sensação ao mesmo tempo doce e amarga com que fico quando penso em 2012. Como escrevia no meu último artigo, têm-se vivido reflexos positivos do que foi a CEC e o último ano foi um bom exemplo disso. Entre outros aspectos, destaco a presença de dois colectivos vimaranenses na programação de uma outra CEC (Valletta 2018) ou a melhor edição de sempre de um dos reflexos de 2012, a bienal Contextile.

O legado ao nível da renovação do espaço urbano, das infra-estruturas culturais (CIAJG, Casa da Memória, Centro de Criação de Candoso) e do novo impulso à criação a partir de Guimarães são, certamente, aspectos a merecer consideração positiva.

No entanto, não deixo de contemplar alguma desilusão. Sublinho aqui dois aspectos. O primeiro, é visível ao nível do movimento associativo. A CEC deu impulso à criação de novas associações culturais – algumas das quais com um trabalho muito visível, como apontava no último artigo –, mas não contribuiu tão decisivamente como se esperava para a modernização da generalidade das instituições mais antigas da cidade. Os mesmos hábitos instalados, o mesmo olhar sobre as coisas e – em muitos casos – os mesmos protagonistas são reflexo de um certo conservadorismo vimaranense com o qual 2012 não mexeu.

O segundo aspecto é político e tenho escrito sobre ele – tantas vezes que começo a sentir-me repetitivo. A Cultura perdeu centralidade na acção política municipal. Três exemplos recentes que ajudam a comprovar o meu argumento: o fim de uma vereação independente da Cultura, em detrimento de uma no Turismo; o recente episódio à volta do CIAJG que demonstra que, às portas de 2020, os políticos locais continuam sem saber falar de cultura; ou a forma como as residências da rua da Rainha, pensadas para artistas, se tornaram de investigadores, sem que se isso fosse minimamente questionado.

Talvez possa ter feito uma má gestão de expectativas. Mas quando, em 2006 e 2007, me envolvi nas discussões sobre o que poderia ser a transformação de Guimarães nos anos da CEC, imaginei uma alteração mais radical e importante na cidade do que aquela que realmente sucedeu.