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Serão os professores culpados?
Sexta-feira, Novembro 21, 2008

É velha e amplamente popular a estória de uma mãe que assistia ao juramento de bandeira do seu filho. Enquanto todos os integrantes do pelotão avançavam com a perna direita, o seu filho avançava com a esquerda. Ora esta mãe, orgulhosa do seu filho, atirava para quem a queria ouvir: “Olha que bem que vai o meu Zé! E é o único com o passo certo, todos os outros levam o passo trocado.”

Encontro nesta estória um grande paralelismo com a “guerra” que se trava neste momento no ensino em Portugal opondo o Ministério da Educação liderado por Maria de Lurdes Rodrigues e a classe dos professores.
Não me apercebi ainda que os professores colocassem em causa a sua avaliação, o que constato claramente é que têm posto em causa ESTA avaliação, tal como este modelo de ensino. Parecendo quase o mesmo, são coisas totalmente distintas.

Quando quase todos os intervenientes no processo educativo criticam negativamente este modelo de avaliação, quando 3/5 dos professores no activo se disponibilizam para o contestar em plena rua, quando centenas de escolas já decidiram a suspensão de tal modelo de avaliação decretada pelo ministério e muitas outras enviaram documentos de contestação, efectivamente algo não está bem e só mesmo por autismo ou teimosia política se pode manter a intransigência em rever tal modelo. Géneros sexuais à parte, José Sócrates e Maria de Lurdes Rodrigues podem ocupar perfeitamente os mesmos papéis da estória acima narrada na “guerra” que decorre entre o ministério e os professores.

Mas esta “guerra” no ensino não é apenas uma questão ministério/professores e muito menos uma “guerra” sindicatos/ministério como alguns têm tentado fazer passar.

Também eu enquanto pai e encarregado de educação de dois alunos e todos os pais e encarregados de educação que acompanham atentamente a aprendizagem e evolução dos seus educandos temos motivos mais que suficientes para estarmos deveras preocupados.

Não é tanto a “guerra” dos professores/ministério em si, mas sim as consequências desta avaliação e do modelo de ensino que se está a promover em Portugal.
Preocupa-me por exemplo o caso concreto divulgado por um responsável do SINDEP ao DN em que uma professora com 9 turmas e 193 alunos vai ter que introduzir manualmente no computador 17 377 registos e fazer 1456 fotocópias, além de participar em… 91 reuniões!

Este não será caso único, mais turma menos turma, com toda a certeza existirão centenas de casos idênticos. Sabendo eu que os professores também são gente, têm família e direito à sua vida extra-profissão, questiono-me qual o tempo útil que ainda lhe resta para preparar devidamente as aulas e os exercícios ou qual a motivação que ainda lhe sobra para ensinar os meus filhos, e os dos outros, cumprindo assim a sua função de ensinar e formar os homens de amanhã?

Preocupa-me por exemplo que Maria do Carmo Vieira, professora de vasto e intocável currículo, afirme categoricamente que “…com a implementação desta nova reforma oficializou-se a mediocridade na escola.” ou “…talvez o principal objectivo (estou cada vez mais convicta disso) seja treinar os alunos a não pensar. Não é por acaso que se descura a língua e a sua gramática, num mau-trato oficializado, manifesto na indiferença perante o erro ortográfico, a pobreza de vocabulário, a incorrecção verbal, a falta de rigor.”

Preocupa-me por exemplo o despacho normativo n.º 50/2005 para o ensino básico, emanado pelo ministério liderado por Maria de Lurdes Rodrigues – que decidiu que para este ano lectivo 2008/2009, os alunos poderão passar do 7.º para o 8º ano com cinco negativas (5!!!) desde que duas delas não sejam Português e Matemática. Como não acredito em milagres, preocupa-me por exemplo que no curto espaço de três anos (3!!!) a taxa de retenção no ensino básico tenha passado de 12,2% para 8,3%.

Preocupa-me por exemplo a ideia de que os alunos não possam chumbar até ao 9.º ano e que os meus filhos sejam transformados em meros números estatísticos e não em futuros cidadãos devidamente formados científica e culturalmente.

Preocupa-me por exemplo que o ministério da educação gaste milhões em computadores Magalhães e aqui na nossa vila exista uma pré-escola na Charneca onde o prolongamento de horário funciona há vários anos provisoriamente no interior da cantina da escola, sem condições sofríveis para tal actividade.

Efectivamente, enquanto pai que recusa liminarmente que os seus filhos sirvam prioritariamente para elaborar estatísticas coloridas sobre o sucesso educacional português, estas e muitas outras situações do actual ensino em que os meus filhos leccionam, preocupam-me, e muito! E… Não me parece que possa atribuir a responsabilidade destas preocupações aos sindicatos, aos professores ou a tantos outros contestatários deste modelo de ensino.