Romagem ao passado – XXXVII
Sábado, Julho 1, 2006

A ele me ligavam recordações impereciveis dos despreocupados tempos da mocidade. Um dia, pelos meus quinze anos – tinha ele à volta de vinte – vai-me arrancar ao trabalho para o acompanhar ao Porto já não me recordo bem com que fim. Resolvido o assunto que o lá levou, se a memória me não falha, relacionado com o consulado espanhol sobre burocracias diplomáticas ligadas à sua frequência da Universidade de Comilhas, onde, de forma brilhante, se doutorou defendendo uma tese sobre o “Corpo Místico de Cristo”. Após o almoço deu-me a oportunidade para escolher um filme entre dois, um francês e outro português: Mons-Vicent – vida de S. Vicente de Paula – e “Não há rapazes maus” sobre o saudoso Padre Américo que sonhou e realizou a magnífica “Obra da Rua” que tantos jovens recuperou da desgraça e do vício e que a politiquice destes desgraçados tempos tudo faz para aniquilar.

Escolhi o primeiro, que ele aprovou pois se tratava de um filme de superior qualidade com imagem e pureza de som impressionantes.

Foi um dia cheio que terminou à mesa do seu tio, abade de Sande onde a irmã, Ser ‘ Antoninha, nos brindou com suculento jantar. Seguiu-se, até às tantas, um serão camiliano com a leitura de algumas Novelas do Minho numa das quais, a que tem por título “O Comendador”, se bem me recordo, o génio de Camilo nos fazia rir até às lágrimas com a análise zoomórfica das pulgas que infestavam as camas das estalagens e hoteis de Braga. Ali desvenda, de forma científica, a causa que permitia à pulga braguesa saltar a alturas fora do comum…

Nos tempos que famosos oradores sagrados usaram o púlpito da Igreja de Sande como Moreira Neto, Álvaro Dias, António Barreiros e outros mais, em confronto com a eloquência desses grandes da oratória sacra, o Dr. Jesus Ribeiro não saía diminuido. Estou plenamente de acordo com a Nela Vilas quando afirma que era “Homem de palavras faceis” e eu acrescentaria que também profundas com uma facilidade de improvisar surpreendente que mantinha a assembleia presa da sua boca. Quando falava, ouvia-se uma mosca, como soi dizer-se!

Com Manuel Joaquim de Sousa que ainda hoje é lembrado, por antonomásia, o Reitor das Taipas, e Castro Mendes, formou um trio de respeito no Seminário Conciliar – autêntica universidade pelo nível docente daqueles tempos, esse grupo deu brado pela inteligência em grau fora do vulgar e que os seus condiscípulos ainda hoje recordam

Mais uma intenção nas minhas “conversas” diárias com Deus a juntar à do saudoso Reitor.

Cumprida esta nota de gratidão e saudade e como o prometido é devido, voltemos às Pontes para reviver a minha convivência com o Alberto de Oliveira.
Nesses tempos em que o trabalho nos tomava o tempo de segunda a sábado, só domingo, de tarde – a manhã era destinada às obrigações devocionais a que não faltavamos-lá íamos ao cinema, ao Teatro Jordão, belo edifício inaugurado poucos anos antes. Aí tivemos ocasião de nos extasiarmos com os grandes filmes que assinalaram aquele tempo de guerra e pós-guerra que ficaram na História do Cinema. Antes, em 1938, tivemos oportunidade de, no adro da igreja de Sande, ao ar livre, de noite como é óbvio, com o ecrã na parede do Sindicato Nacional dos Garfeiros, ver pela primeira vez cinema através do filme “Revolução de Maio” que ainda hoje revejo com emoção. Uns tempos depois, no cenário do ring de patinagem do parque das Taipas, foi a vez de, em iguais circunstâncias, visionarmos uma produção espanhola “Nada de Novo no Alcazar” que descrevia a odisseia da resistência dos nacionalistas de Franco, na defesa do célebre monumento – fortaleza de Toledo.

Em Guimarães, no Jordão, passaram pelos nossos olhos as grandes produções que marcaram uma época. Ao mesmo tempo que Hollywood inundava a Europa com as suas super-produções, a lendária U.F.A. produzia obras primas do cinema alemão de que destaco o “Anjo Azul” que enriqueceu o cinema com uma artista que criou uma lenda, Marlene Dietricht. Servido por fantásticos realizadores como Sternberg e Fritz Lang, foi lamentavel que a política influenciasse uma arte que produziu maravilhas como o “Congresso que dança”, “A Tragédia da Mina”, “Czardas” em que mais um “monstro sagrado”, Marika Rokk, dá início a uma carreira triunfal. Como é de lamentar, repito, que a porca da política, seja da direita, seja da canhota, estragasse a arte insuperavel de fitas extraordinárias como “O Triunfo da Vontade” a que o génio de Leni Riefenstahl deu vida, a mesma que nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1934, realizou a obra-prima “Olimpíadas” ainda hoje considerada paradigma da mais alta técnica cinematográfica.

Do cinema francês, assistimos também a grandes realizações como “Sob os Telhados de Paris” ou “Parada de Amor” em que o grande Maurice Chevalier brilhou a grande altura. Da Suécia, surgiram os grandes “astros”, como então se dizia, a inesquecivel Ingrid Bergman e a “divina” Greta Garbo. Da numerosa legião de actores americanos, destaco um que serviu de modelo na forma de vestir masculina, Tirone Power. O chapéu “à Tirone” tinha umas abas largas e uma pena de pássaro na fita.

Tivemos o privilégio de assistir, na altura da sua estreia, aos fabulosos “E tudo o vento levou”, “Casablanca”, “Pelo vale das sombras” e tantas outras produções americanas.

No rescaldo da guerra, foi a vez do neo-realismo italiano invadir as pantalhas de todo o mundo com títulos como “Roma, cidade aberta”, “Ladrões de bicicletas”, “Arroz Amargo”, com artistas de alto coturno e generosas relevâncias peitorais como Silvana Pampanini, Gina Lolo brígida, Silvana Mangano…

E do cinema português? As gerações de agora não fazem ideia do orgulho que tínhamos ao assistirmos a produções feitas em Portugal com temas e artistas portugueses! E que artistas nós tinhamos! António Silva, Vasco Santana, Ribeirinho, Beatriz Costa e tantos, tantos outros… Fitas como “Canção de Lisboa”, “Aldeia da Roupa Branca”, “Aniki Bóbó”, “Costa do Castelo”, “Leão da Estrela”, “Maria Papoila”… este último feito à medida da inesquecivel Mirita Casimiro que nele cantou uma canção que logo ficou no ouvido de toda a gente: “Sem soidades na alembrança, disse adeus, à terrinha mais ao lar”… “Não me importo de ir à toa, que o meu sonho é ver Lisboa mai-l ‘ o mar que nunca vi”… E do mesmo realizador, Leitão de Barros, as “Pupilas do Sr. Reitor” com outra não menos popular cantiga: “Roubei-te um beijo Maria, desde esse dia, morra se minto”… “A chita da minha blusa, já não se usa, foge demónio”. Que belas cantigas a mocidade do meu tempo cantarolava em contraste com o ensurdecedor berreiro da “malta” a saltar e a sacudir os braços em gritos próprios da selva e a “saracotear a bunda”…

Tristes sinais dos tempos que passam e mau presságio para o futuro dos nossos netos…

Longos, 1 de Junho de 2006