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Sobre rodas na Proto-história
Quinta-feira, Março 1, 2018

Pormenor do Carro Votivo de Vilela. Coleção da Sociedade Martins Sarmento.

Sendo embora um alegado marco histórico na evolução das comunidades humanas, tal como a “domesticação do fogo”, o início da utilização da roda não tem uma cronologia precisa, sendo certo que terá ocorrido na Pré-história Recente, algures pelo Próximo Oriente. Pelas nossas bandas, essa utilização é ainda mais obscura, embora seja também admissível a utilização de veículos com rodas antes da Idade do Ferro, ou seja, há mais de três mil anos.

Já tem surgido, ao falarmos com pessoas que visitam os nossos castros de Guimarães, a pergunta se na época existiam rodas, carros, carroças e, nesse caso, porque não se encontram marcas de rodados nas muitas calçadas da Citânia de Briteiros. Se a resposta à segunda questão não é tão exata, porque se admite, para os arruamentos dos castros maiores, a possibilidade de uma utilização que hoje chamaríamos “pedonal”, quanto à primeira questão, já existiam de facto veículos com rodas na época pré-romana.

Noutros contextos europeus, não só se recolheram vestígios materiais evidentes de rodas e elementos de carros, como está documentada a utilização de viaturas na guerra, como na Grã-Bretanha, ou seja, carros de combate, puxados por cavalos. No Norte de Portugal, onde um solo granítico ingrato não conserva facilmente materiais orgânicos, nunca foram recolhidos vestígios de rodas, propriamente. Uma utilização sistemática da forma circular, desde logo nas casas, nos escudos defensivos e em toda a simbologia decorativa das cerâmicas e dos metais, indicia como o círculo se aproximava da forma perfeita para os habitantes dos castros. Além disso, o recurso generalizado de cerâmicas feitas a torno, demonstra uma diferente utilização da roda, a de oleiro, já para não mencionar as “rodas de pedra”, os moinhos rotativos manuais, esculpidos em granito.

Além dos indícios referidos, o “Carro de Vilela”, proveniente de Paredes e exposto no Museu Martins Sarmento, estilisticamente datado dos séculos IV-III antes de Cristo, acaba por comprovar uma hipótese. No conjunto artístico feito em bronze, representa-se um carro de bois estilizado, com juntas de bovinos, condutores, eixos e rodas. Surpreendentemente, ou talvez não, denota-se uma extraordinária semelhança entre este carro e os carros de bois de utilização comum em Portugal há umas décadas atrás, pese embora a configuração das rodas, com travessões horizontais paralelos, não seja a mais vulgar, em períodos recentes.

Confirma-se, portanto, a existência de veículos com rodas na época pré-romana, e a utilização de bovinos como animal de tração. Qualquer utilização destas viaturas para além de transporte de carga é que já andará mais pelo domínio da especulação.