Rios para todos
Quinta-feira, Outubro 17, 2019

“Devolver o rio às pessoas!” Ora aí está uma expressão que nos é familiar. Mas será que eles querem voltar para as “pessoas”? Se eu fosse o rio Ave, podem estar certos que me recusava a sair da Serra da Cabreira!

Sei bem do sentido figurativo dessa “devolução”, que passa por melhorar o estado do rio, tornando-o acessível e aprazível ao usufruto da população, mas ainda assim é de registar o sentido de posse típico do antropocentrismo que usou e abusou dos rios, e o paradoxo de querer devolver o rio a quem o tratou tal mal.

Os rios não estão cá para servir (só) as pessoas, já cá estavam antes delas, e se algum dia elas se forem, eles por cá ficam. Os rios servem a Natureza e é a Ela que eles devem ser devolvidos.

E é precisamente sobre os Rios, do seu real valor e do que fazemos com eles, que trata a próxima edição da mostra de cinema documental (Ecorâmicas) da AVE – Associação Vimaranense para a Ecologia. Durante os dias 24 a 27 de Outubro os Rios serão o tema dos filmes a exibir e dos debates com reconhecidos especialistas na matéria.

Os rios também têm merecido a atenção do município. O mais recente exemplo é “O Ave para Todos”, descrito como um projeto-piloto de um ano que assenta em três eixos: Educação e Sensibilização Ambiental, Investigação e Desenvolvimento e ainda Comunicação.

Gosto do objetivo principal do eixo de educação e sensibilização que pretende “estabelecer uma ligação sentimental entre o cidadão e o rio através da capacitação de todos os envolvidos”, e desde já me disponibilizo para colaborar.

O eixo de investigação e desenvolvimento, apesar de não ser reconhecido como tal, é um projeto já existente, o AquaBioScape, protocolado em 2018 com a Agência Portuguesa do Ambiente, e descrito como “uma primeira fase de muitas para melhorar e valorizar as redes hidrográficas”. Na verdade, o AquaBioScape é ainda anterior a esse protocolo e nunca cumpriu a promessa de transparência e divulgação de resultados que sempre lhe esteve associada.

No plano teórico é globalmente um bom projeto, mas tem dois aspetos menos abonatórios que, infelizmente, já são imagem de marca das ações ambientais do município: (i) foi comunicado de forma falaciosa e/ou ignorante, como tendo por finalidade a “elevação do rio Ave a Património Natural”, tipologia de classificação que aliás nem existe; (ii) a estruturação é focada nos requisitos da candidatura a Capital Verde ou a um qualquer prémio de boas práticas, e não nas necessidades específicas do tema e território.

Quero muito que o potencial d’“O Ave para Todos” se cumpra e que o projeto possa ter um contributo significativo na forma como as “pessoas” se relacionam com os rios, “devolvendo-os” a Todos – à Natureza.