Remodelar a casa, ao gosto do século I…
Quinta-feira, Outubro 24, 2019

Um dos objetivos das escavações que se têm realizado na Citânia de Briteiros é o estudo da sobreposição de construções em diferentes fases históricas. Embora este aspeto tenha passado mais despercebido aos arqueólogos dos séculos XIX e XX, uma simples observação da planta das construções sugere que várias soluções construtivas marcaram épocas distintas, correspondendo a diferentes formas de pensar e aproveitar o espaço. Falamos, naturalmente, das casas redondas e quadradas.

Um troço de muro perimetral e alinhamento de construção circular, sobrepostos por um compartimento da casa escavada na Citânia de Briteiros.

Tradicionalmente, olhava-se para as construções circulares como algo de local, genuíno e “castrejo” e para as casas quadradas e retangulares como um indício de romanização. Este critério era, aliás, seguido à risca para diferenciar os “castros romanizados” dos que tinham sido abandonados antes da época romana e, portanto, livres de qualquer influência do “invasor”. Considerava-se também, nos “castros romanizados”, a persistência de construção de casas retangulares e redondas conforme a preferência dos seus habitantes, mais ou menos permeáveis à influência latina… A evolução das pesquisas, no entanto, permitiu aferir que há casas retangulares da Idade do Ferro, anteriores ao contacto com os romanos, em vários castros. Além disso, a partir da integração do território na órbita do Império Romano, há poucos indícios de construção de casas de forma circular, embora muitas delas tenham continuado a ser habitadas.

Além das construções retangulares que surgiram como uma forma de melhor aproveitar o espaço, integradas em conjuntos familiares mais antigos, sabemos que a partir do século I, ou do final da centúria anterior, começaram a construir-se conjuntos integralmente formados por construções retangulares, seguindo um modelo que parece ter sido projetado de acordo com os princípios da arquitetura romana. É este o caso do espaço doméstico onde se realizaram escavações na Citânia, neste ano de 2019.

Numa das sondagens realizadas, contudo, verificou-se que o espaço já tinha sido ocupado anteriormente com outro tipo de construções. Não sabemos se seria também um espaço habitacional – será o mais provável – mas sabemos que tinha construções circulares, posto que foi detetado o alinhamento de uma construção redonda, rodeada por um muro perimetral, ambos arrasados pela construção “romana” que agora vemos.

A casa que temos vindo a estudar, veio sobrepor construções anteriores, como se suspeitava. Vemos, portanto, que razões de ordem cultural e funcional, tornaram obsoletas as construções redondas, levando os proprietários desta casa a remodelarem totalmente o espaço. Algo que os seus vizinhos não parecem ter feito, pois que, ao mesmo nível, se mantiveram duas casas redondas… Era o vizinho um conservador, ou um resistente? Não teria meios? Ou será que a casa ao lado já não era habitada quando se construiu esta?