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Referendo sobre o… Aborto
Quarta-feira, Dezembro 6, 2006

Entre as várias leituras que temos feito sobre o assunto, houve uma que nos tocou de modo particular, não só pelo título: “Seria um triste direito das mulheres”, mas também pelo fundamento da argumentação e por ser feito por uma mulher. A título de partilha, de reflexão e de interpelação, achámos por bem citá-lo na íntegra.
“Sou mulher e, segundo alguns, parece que devia estar contente porque querem oferecer-me o aborto livre e gratuito; dizem que é para me dar mais um direito. Mas não estou contente, estou triste: entristece-me profundamente que ponham sequer esta hipótese. Não quero o direito de poder matar um filho em momento algum da sua vida. Mais, sei que mesmo que a lei um dia o declare, preto no branco, esse direito continuará a ser sempre uma mentira. Ninguém tem o direito de destruir uma vida, e ninguém pode dar esse direito.
Fomos dos primeiros a abolir a pena de morte. Que pena me faz ver este Portugal a regredir a esses tempos, em que se considerava que um ser humano tinha poder de vida ou de morte sobre outro! Dizem também que eu devia estar contente porque assim me querem proteger. E eu pergunto: proteger de quê? Proteger de ser mãe?! Será a maternidade uma doença assim tão terrível?
Sou mulher e vejo-me tão citada, tão implicada, tão no centro desta discussão, que decidi informar-me melhor. Talvez eu não estivesse a ver bem as coisas…
Afinal, parece que querem proteger-me da cadeia. Que eu queira abortar parece que é considerado dado adquirido. Que eu o faça ilegalmente, também. Portanto, tudo se resume às consequências do acto, não às causas nem sequer ao acto em si mesmo.
Infelizmente, eu sei que há quem o faça, e acredito que, na enorme maioria dos casos, não é simplesmente para mostrar “que se manda na própria barriga”. Dizem os estudos sérios, dos países onde o aborto já é livre, que não são as mulheres pobres quem mais aborta, parece que são as jovens com pouco mais de 20 anos, que investiram a vida inteira nos estudos e na carreira, e que neste mundo de competição desenfreada, onde se tornou tão difícil ser mãe, vêem os seus planos desmoronar-se e pensam que por ter aquele filho vão desperdiçar os seus esforços e estragar a vida. Sejam quais forem as razões, são sempre mulheres que enfrentam um drama de medo e solidão. Eu também não as quero na cadeia, concluí.
Mas depois fui informar-me melhor. Afinal há mais de 30 anos que não há nenhuma mulher na cadeia por ter abortado. E nos últimos 8 anos só 4 ou 5 foram julgadas (aquelas pobres 4 ou 5 que os que dizem que querem defender as mulheres puseram na televisão, desvendando o que podia e devia ter ficado anónimo). Coitadas, queriam tanto esconder aquela gravidez (e certamente ainda mais aquele triste acto)… mas os seus defensores não deixaram. Ainda por cima, todas tinham abortado depois das 10 semanas. Esta lei do referendo nada mudaria para elas.
Também soube que deputados de vários partidos e associações de defesa da Vida propuseram mudar as regras – não a lei – mas as regras do processo, para que as mulheres fossem à partida desculpadas e nem sequer fossem a Tribunal. Claro que isto não implicava oferecer a todas as mulheres, ricas ou pobres, com ou sem problemas, abortos gratuitos nos hospitais, também não impedia o julgamento dos médicos e parteiras que enriquecem à custa da vida dos filhos e da destruição interior das mães, não protegeria quem força a mulher a dar este passo, e muito menos implicaria a abertura de clínicas privadas. Apeteceu-me muito perguntar: mas afinal querem proteger quem? A mulher não é de certeza.
Ao procurar saber mais, descobri que mais de metade das mulheres que abortam nos países onde é legal, dizem que o fizeram obrigadas. Se ao menos fosse proibido podiam ter dito que não ao marido, ao namorado, ao pai, ao patrão, mas assim, sem nada a protegê-las, entraram no hospital e saíram de lá diferentes. Para sempre.
Tenho uma grande amiga que abortou quando era nova, tinha 20 anos e sentia-se incapaz de ser mãe. Pensou que assim ia esquecer rapidamente aquela gravidez tão fora de horas. “Correu tudo bem”, o bebé foi desfeito por mãos muito profissionais, não teve problemas de saúde, mas as feridas de que ninguém lhe falou nunca mais sararam. Aos 40 anos era alcoólica, estava sozinha, nunca mais teve outro filho… Ela é que precisava de ter sido protegida. Fico feliz por saber que agora já há muitas associações que ajudam mulheres nestas circunstâncias. Que protegem realmente, ajudando a enfrentar a realidade dum filho que já existe e que mesmo não programado se pode aprender a amar.
Fico triste, terrivelmente triste, quando dizem que me querem dar o direito ao aborto livre e gratuito, e mais ainda quando se atrevem a dizer que é para me proteger”.
Margarida Campos. Vidas com Vida.
(Em: Agência Ecclesia, 14 Nov 2006, p. 2)