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“Queriam telenovelas, era?”
Quinta-feira, Fevereiro 1, 2018

Vários meios da imprensa replicaram, no início desta semana, a notícia de que a próxima telenovela da TVI será parcialmente rodada em Guimarães. Ainda sabemos pouco sobre o como e o quando desta operação. A opção que foi tomada pelos responsáveis municipais permite, contudo, fazer desde já uma leitura política: alguma coisa mudou na visão da cidade. E não fomos convenientemente avisados sobre isso.

Neste momento, não sabemos ainda quanto vai custar o apoio à produção aos cofres vimaranenses. Uma pesquisa online permite perceber que a telenovela que a TVI tem actualmente em grelha custou 150 mil euros à Câmara de Viana do Castelo. Exemplos anteriores que encontro em notícias fazem crer que a opção não custará nunca menos de 50 mil euros ao município.

De um ponto de vista meramente financeiro não é uma má operação. Qualquer valor entre os 50 e os 150 mil euros significa um custo relativamente reduzido por um tempo de exposição mediática alargado (tipicamente uma telenovela tem mais de 200 episódios) em horário nobre, chegando a mais ou menos um milhão de pessoas todos os dias, a avaliar pelas audiências das telenovelas mais recentes da estação de Queluz.

A pergunta que interessa, todavia, é esta: é isto que pretendemos enquanto cidade? Não é preciso ser especialista em estudos da recepção para saber que o público das telenovelas corresponde, grosso modo, às camadas mais baixas da população – as chamadas classes C2 e D. Também não é preciso ter mais do que uma noções básicas de Sociologia para saber que, além de menor capital económico, as classes mais baixas têm também menor capital cultural.

Guimarães costumava assumir-se como um destino de turismo cultural. Fez a sua afirmação nacional e internacional por via do seu património e, posteriormente, da oferta cultural contemporânea de relevo. Durante anos, ouvimos acertados comentários de anteriores responsáveis políticos recusando a sazonalidade e o turismo de massas.

Não sou consumidor de telenovelas, como se percebe. Mas nas pesquisas que fiz para escrever este artigo acabei por descobrir que a telenovela que actualmente está a ser emitida na TVI tem como tema de genérico “Despacito”, uma canção que é uma espécie de cancro musical de que não se pode fugir.

A que lixo auditivo queremos associar Guimarães? Talvez um bonito plano do centro histórico feito por um drone ao som do hit de MC Beijinho (obrigado, youtube) sirva para trazer mais umas centenas de turistas à cidade. Mas algum deles entrará no Centro Internacional das Artes José de Guimarães ou fará mais do que uma selfie para as redes sociais em frente à Torre da Alfândega?

A visão da cidade enquanto destino turístico parece ter mudado recentemente. Já o devíamos ter percebido quando a Câmara decidiu canalizar 40 mil euros para financiar um circo mixuruca numa zona nobre para “animar” a cidade por altura festiva.

E se há uma nova visão de uma cidade cujo perfil do turista se massifica, ela até pode ser legítima. Tem é que ser enunciada. No mínimo, comunicada à cidade. E, preferencialmente, discutida com ela. Agora não pode é continuar a pretender-se que Guimarães continue a ser um destino de turismo cultural, quando se tomam opções como esta.