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Quando alguém quiser fazer a história de hoje
Quinta-feira, Abril 4, 2019

Tânia Dinis, Sara Costa e Pedro Bastos assinaram, no fim-de-semana passado, um excelente espetáculo de teatro a partir dos arquivos do Teatro Oficina, no momento em que passam 25 anos sobre a criação da companhia de teatro municipal. “Linha de Montagem” parte do teatro, em específico do espetáculo A Grande Serpente, a primeira produção da então ODIT, que foi estreada em 1994. Mas vai mais longe.

Mergulha numa história bem mais universal. A das cíclicas crises capitalistas que expõe uma região como esta – industrializada, mas pouco inovadora e por isso profundamente dependente do exterior – a uma contínua história de desespero.

“Linha de Montagem” é particularmente inteligente na forma como sublinha os momentos em que se cruzam estes dois universos: o de um território que inventa um projecto cultural para a sua própria afirmação; e o da morte-sempre-iminente (e, até ver, sempre-adiada) do têxtil. É um espetáculo magnífico.

Não é, porém, uma crítica teatral o que quero fazer neste texto – nunca foi esse o propósito desse espaço. O que me interessa é partilhar uma das reflexões que o espetáculo suscitou. No esforço extraordinário de pesquisa que “Linha de Montagem” demonstra, os criadores recorrem com frequência a textos que foram publicados em jornais locais durante 1994.

É, aliás, da coincidência entre páginas de jornais onde se escreve sobre a companhia de teatro que então nascia e se publicavam também notícias sobre a crise, as falências e as visitas falsamente preocupadas de algumas personagens sinistras da política nacional, que nasce o principal foco de reflexão da peça.

O que me perguntava no final de “Linha de Montagem” era o seguinte: E quando alguém, daqui a 25 anos, quiser contar uma história como esta sobre o tempo de hoje? Em 1994, os jornais – nomeadamente o extinto O Povo de Guimarães – publicava críticas aos espetáculos que então aconteciam na cidade. A vida artística deste território tinha espaço na imprensa local.

Hoje, salvo raras excepções (na verdade, entre os jornais locais, há apenas uma, este mesmo onde escrevo), os meios locais não reflectem sobre a vida cultural e artística da cidade e do concelho. Críticas ou crónicas, nem vê-las. As notícias são também muitíssimo raras.

Imaginei, pois, um cenário – um tanto próximo da ficção científica. Uma qualquer catástrofe dizimava quase toda a população da região. A que sobrava perdia inexplicavelmente a memória. Um grupo de cientistas deslocava-se à região para contar a história dos últimos anos em Guimarães e ficava com uma imagem bastante distorcida da realidade. “Então, mas esta cidade não foi Capital Europeia da Cultura em 2012?”, perguntavam-se. “E a actividade cultural eclipsou-se?” “Ou só há saraus de escolas secundárias, de um momento para o outro?”.

É este absurdo de realidade em que vivemos – e sobre o qual já escrevi no final do ano. E que vai muito para além da cultura. O desfasamento entre o facto que é um abrandamento da actividade económica que já se sente na região e a persistência de uma mitificada narrativa sobre a “crise de sucesso” de Guimarães nas páginas dos jornais é inexplicável. E é grave. Quando as pessoas não conhecem a realidade do sítio em que vivem, como se pode esperar delas que intervenham civicamente? É esse um dos pressupostos das Democracia. Mas quando um dos pilares falha, é todo o sistema que está em causa.