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Publicação de trechos dos textos vencedores do concurso #RBCOOL (4/4)
Publicação de trechos dos textos vencedores do concurso #RBCOOL (4/4)
Terça-feira, Março 14, 2017

O Concurso Literário #RB Cool para os alunos do 1.°, 2.° e 3.° ciclos e do secundário integrou o Húmus – Festival Literário de Guimarães, que decorreu entre os dias 8 e 12 de março. Um dos principais pilares da iniciativa foi levar as obras de Raul Brandão aos alunos do concelho. O Reflexo divulga em exclusivo excertos dos textos vencedores.

João Afonso Maia da Silva, 17 anos, escreveu o texto a partir de “Húmus”, uma das obras mais proeminentes de Raúl Brandão e que, por estes dias, deu nome ao festival literário de Guimarães. Sob o pseudónimo Julião Figueira, este aluno do Agrupamento de Escolas Santos Simões, quer continuar a escrever no futuro. Mas refere que “é difícil viver da arte em Portugal” e, a frequentar o 12.º ano, João Afonso pensa seguir Direito.

 

Vencedor na categoria Secundário
Trecho selecionado de Os Moinhos de Vento
Tema: Guimarães são as pessoas: histórias das gentes do meu concelho
João Afonso Maia da Silva
Agrupamento de Escolas Santos Simões

A noite morre e vive o dia. Ilumina-se Guimarães de norte a sul, seca-se o orvalho nas árvores e some-se a geada nas ervas rasteiras.
Reflete-se o sol nascente desde o rio das Taipas até à calçada molhada da Avenida de Londres.

O dia aquece nos rostos das pobres gentes que saem de suas casas, ainda o sol apenas espreita, para colocar pão e sopa na mesa para os filhos, pagar-lhes quiçá um novo par de sapatos ou pô-los a estudar. É este o seu sonho: ver os filhos a partir para Coimbra, preparados para voltar médicos e salvar vidas, calçados, bem aprumados, vestidos à última moda, de barriga cheia e sorriso na face, enchendo de orgulho as mães trabalhadoras.

As fábricas arrancam a sua labuta, começa o espetáculo do progresso humano. O homem comanda a máquina e a máquina comanda o homem. É ele que mete a máquina a funcionar e é ela quem mete a comida na mesa do homem. A simbiose do capitalismo. Mas calem-se todas as vozes, está a atuar o coro dos teares mecânicos e das lançadeiras, dos motores e das prensas, do vapor que sobe em direção às chaminés, em direção ao céu e do suor que desce pelas testas dos trabalhadores.

Hoje, Maria Inês não é uma das mulheres que peregrina em direção ao ofício. Deitada na cama, sente a terra a tremer e a dançar, arde em febre e respira com dificuldade. “A tosse não engana. É a tuberculose!”. Florêncio, o médico, guarda o estetoscópio, como ditando a sentença e declarando o óbito. Sente a misericórdia no olhar de Carlos, o marido, e no pequeno António, que tão novo, tão de repente se faz, assim, órfão de mãe.

Maria sabe que, nessa noite, morrerá. Conta com pouco mais de vinte anos. Teve a vida arrancada pela raiz. Chora, mas não por si, não por causa das dores, chora pelas lágrimas que escorrem no rosto do seu amor, que a amava tanto e que tanto ama, e do seu filho. Que será do pequeno António, com a mãe levada tão cedo e tão cedo menino tornado homem?! Ele que nem sete anos conta, anda na escola (com distinção, o orgulho dos pais!) e agora vê arrancada toda a sua inocência e meninice.

“Morre gente assim todos os dias!”, como se a morte dos outros servisse de consolo.


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www.raulbrandao.pt