Reportagem — Proteção Civil: de olhos bem abertos
Segunda-feira, Agosto 19, 2019

Durante 24 horas por dia, operacionais da Proteção Civil e outros agentes procuram tomar as melhores decisões em cenários de emergência. Passamos um dia com o CODIS Hermenegildo Abreu, para perceber como tudo acontece.

Apesar do céu limpo, o dia despertava com bastante humidade e corria um vento fraco. Para antever o que poderia reservar um dia entre as equipas da Protecção Civil de Braga, uma passagem de olhos pela meteorologia pareceu de utilidade. O encontro estava marcado com várias semanas de antecedência e o objetivo era conhecer por dentro, durante um dia, o funcionamento dos vários recursos instalados nesta época, sob coordenação do Comando Distrital de Braga da Proteção Civil.

Desde 2017 que o comandante desta estrutura no distrito de Braga é Hermenegildo Abreu, que anteriormente teve sob seu comando a corporação dos Bombeiros Voluntários de Caldas das Taipas. Hermenegildo tem uma vida inteira dedicada aos bombeiros das Taipas e à Autoridade Nacional de Proteção Civil. Nos bombeiros das Taipas entrou em 1986. A Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) foi um passo natural. Na altura em que foi designado pelo Ministério da Administração Interna e pela Autoridade Nacional de Proteção Civil, Hermenegildo Abreu foi Operador do Comando Distrital de Operações de Socorro, na mesma estrutura que agora tem sob o seu comando.

A cidade de Braga entra lentamente no seu normal funcionamento. Às primeiras horas da manhã o comandante Hermenegildo Abreu e a segunda comandante Marinha Esteves recebem-nos à hora marcada. De imediato, ficamos a saber qual é o plano para o dia que está prestes a começar. Tanto a hora como o dia não foram escolhidos por acaso. A passagem do turno da noite para o do dia acontece por volta das 8h30. Quanto ao dia, a quarta-feira é quando decorre o briefing semanal, juntando vários agentes de Proteção Civil. Além de representantes da ANEPC, estão presentes elementos de corporações de bombeiros, PSP, GNR, Cruz Vermelha, Instituto de Conservação da Natureza e Florestas, hospitais, entre outros.

O comando distrital da ANEPC em Braga (CODIS de Braga) está a funcionar no Palácio dos Falcões, um palacete do início do século XVIII, onde funcionou o Governo Civil de Braga e que serve agora de sede ao Comando Distrital da PSP de Braga. É com esta força policial que o CODIS de Braga partilha algumas salas, onde estão instalados alguns gabinetes e a sala onde funciona o centro operacional.

“Isto é muito bonito, mas não é funcional”, desabafa Hermenegildo Abreu referindo-se à configuração do seu gabinete, enquanto toma conta da situação da última noite e verifica o briefing semanal que será apresentado daqui a umas poucas horas. Além do Palácio dos Falcões, o CODIS de Braga tem ainda outras instalações, não muito longe dali, onde funcionam os serviços administrativos e a secção onde são processados os pareceres, vistorias e inspeções sobre os quais a ANEPC é chamada a pronunciar-se.

Nesta situação, Hermenegildo Abreu e Marinha Esteves têm de percorrer todos os dias, pelo menos por uma vez, a distância de 350 metros que separa os dois edifícios. Esta é uma situação que está em fase de resolução. Até ao final do ano, todos os serviços do CODIS de Braga deverão ficar concentrados num único edifício. Uma das alas do antigo Seminário Conciliar de Braga, onde está agora instalada a Universidade Católica, deverá ser preparada para receber todas as valências do CODIS de Braga.

Para já, na Rua D. Afonso Henriques, há sempre documentos que é necessário despachar e dossiês que precisam de acompanhamento. O trabalho de um comandante distrital da ANEPC tem esta parte burocrática, explica Marinha Esteves. Quem está habituado a ver as notícias na televisão, deve achar que o trabalho se reduz aos “teatros de operações”. Há muito mais do que isso, é essencialmente um trabalho de coordenação que procura optimizar os recursos disponíveis.

O briefing semanal

De volta ao Largo de Santiago, faz-se um compasso de espera para aguardar pelos elementos que participarão no Briefing Técnico Operacional (BTO) e que vêm, nomeadamente, de Guimarães, Vizela, Barcelos. Durante um café rápido, a conversa gira em torno da notícia do dia – a interdição do aeródromo de Vila Real, devido a um abatimento de um troço da pista. Ali costumam estar estacionados três veículos de meio aéreo – um helicóptero ligeiro e dois aviões médios anfíbios. Estes dois últimos tiveram de ser reposicionados em Viseu, conforme esclareceu mais tarde um comunicado da ANEPC.

O briefing desta semana acontecerá nas instalações da EDP Distribuição, em Braga. É lá que se juntam todos os representantes das instituições que foram convocadas pelo CODIS e que puderam estar presentes. Normalmente, estas reuniões acontecem nas instalações da ANEPC, mas por vezes decorrem nas instalações de outras instituições.

Durante o briefing técnico operacional, é descrito um conjunto compacto de informação e de indicadores. São analisadas as previsões meteorológicas para os dias seguintes e os níveis de alerta dos diversos dispositivos e entidades. É feito um ponto de situação relativamente aos números das ocorrências e de acidentes de viação. Algumas ocorrências mais significativas são descritas em pormenor e é feito um ponto de situação para cada uma delas. Cada um dos presentes fica inteirado com informação atualizada dos recursos operacionais existentes no terreno, como equipas de bombeiros, sapadores florestais, equipas de patrulhamentos, postos de vigia entre outras informações.

A entidade anfitriã faz também uma exposição sobre o trabalho desenvolvido em matéria de prevenção de riscos. Apesar de os incêndios florestais (ou rurais, como tecnicamente são classificados) ocuparem um espaço central nestas reuniões, ainda para mais nesta altura do ano, há outros riscos a que a ANEPC e as outras entidades têm de estar preparados para dar resposta.

A EDP Distribuição dá a conhecer o trabalho e o investimento que a empresa tem feito nos últimos anos no que respeita à manutenção da rede de distribuição elétrica e da gestão dos espaços florestais adjacentes às linhas de média, alta e muito alta tensão. Inevitavelmente, na memória de muitos dos presentes estão os fatídicos incêndios de 2017. No de Pedrógão Grande a causa apontada pelos especialistas foi uma descarga elétrica.

António Miguel, subdiretor da EDP Distribuição no Norte, não tem dúvidas que a probabilidade de uma descarga elétrica ou qualquer outra causa natural ser capaz de causar um incêndio é muitíssimo baixa. É unânime que a causa dos incêndios que acontecem em Portugal decorrem de atividades humanas – seja por negligência e descuido, seja por motivações criminosas.

A EDP Distribuição gere 68.000 km de linhas aéreas, das quais mais de 28.000 km são em espaços florestais. Tendo em conta os vários usos do solo distribuídos pelo território, a EDP Distribuição destaca 12.000 km que deverão ter cuidados acrescidos, tendo em vista a proteção de pessoas e bens e o isolamento de potenciais focos de ignição. Uma das dificuldades que os técnicos e operacionais descrevem é o acesso às propriedades privadas para fazer a monitorização e a manutenção das zonas de proteção das linhas de tensão elétrica.

A sala de comando

Desde o primeiro dia de julho que os agentes se encontram em período de Empenhamento Operacional de nível IV. Este é o nível mais elevado de alerta, que envolve um maior número de recursos e meios disponíveis para o combate a incêndios. De acordo com o Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Rurais (DECIR) deverão estar disponíveis 11.492 elementos humanos operacionais, até 2.495 veículos dos vários agentes presentes no terreno e até 60 veículos aéreos. O nível IV de empenhamento decorre até ao final do mês de setembro.

Tal como se previa às primeiras horas do dia, as condições atmosféricas e meteorológicas não inspiravam cuidados ou alertas excecionais. Apesar do vento fraco que se fazia sentir, havia humidade na atmosfera o que constitui um factor de resistência a ignições. Mas, apesar disso, na sala de comando é recebido um alerta para um incêndio rural na freguesia de Escudeiros. Mais ou menos à mesmo hora é recebido um alerta para um incêndio na garagem de um edifício na Costa, em Guimarães.

Na sala de comando estão permanentemente oito operacionais de várias entidades, que a todo o tempo cruzam as informações que chegam através dos seus meios. Além dos quatro operadores, está também um coordenador de comunicações, um chefe de sala, um agente da GNR e um elemento da AFOCELCA. Esta última entidade representa as empresas do sector das celuloses e da produção de papel. A AFOCELCA é uma estrutura profissional, criada em 2003, cuja missão é salvaguardar as florestas com interesse económico para estas empresas. Apesar de a sua missão ser proteger as florestas que estão sob o seu domínio, colaboram em permanência com a ANEPC.

Através das comunicações por rádio chegam indicações dos postos de vigia, que estão sob gestão da GNR. Apesar das tecnologias existentes, mais rápidas e eficientes, a localização exata dos focos de incêndio ainda se faz com métodos de triangulação, principalmente como forma de redundância. Cada posto de vigia tem instalado um instrumento de onde se lê a direção a que se encontra o fogo. Através de linhas, são traçadas direções no mapa e a partir da interseção dessas linhas chega-se à localização do fogo. É um método de recurso, antigo, mas que em caso de necessidade ainda funciona, explica Marinha Esteves.

A sala de comando está forrada de mapas e ecrãs que vão dando vários tipos de informação em tempo real. Acompanha-se aqui a mobilização dos meios operacionais para o terreno. As primeiras equipas vão descrevendo aquilo que vêem quando chegam ao teatro de operações. Um amontoado de material sobrante que entretanto secou será a origem aparente do incêndio. São mobilizados 34 operacionais e dois helicópteros, que sairão de Fafe e de Palmeira, em Braga.

No aeródromo de Palmeira, em Braga, encontra-se estacionado um helicóptero de ataque inicial. Neste Centro de Meios Aéreos estão 10 operacionais do Grupo de Intervenção de Proteção e Socorro (GIPS) da GNR. A equipa é composta por um piloto e um operador de comunicações e por oito operacionais.

O aparelho teve dificuldades em encontrar uma área que reunisse condições para uma aterragem em segurança. Depois de aterrar, saltam os operacionais para terra para auxiliar no combate ao incêndio. De seguida, o helicóptero volta a levantar já com a bolsa em posição para ser enchida com água e que será depois descarregada na área do incêndio.

Devido às condições relativamente favoráveis da meteorologia e dos meios disponibilizados para o combate, o incêndio em Escudeiros foi dominado e extinto com rapidez. O alerta foi dado pelas 14h35 e pelas 19h45 foi dada por concluída a operação de rescaldo. Alguns operacionais comentam que, será uma questão de horas até que a pilha de biomassa volte a ser incendiada. Após a limpeza dos terrenos, os proprietários deixam a matéria amontoada, que não é queimada na altura em que é possível fazê-lo. Esta matéria seca torna-se mais perigosa. Por isso, incêndios em pilhas de material sobrante são bastante frequentes.

A Força Especial de Proteção Civil

Em Guimarães, o alerta para o incêndio urbano revelou-se inconsequente. Além das corporações de Bombeiros Voluntários de Guimarães e das Caldas das Taipas, onde está uma Equipa de Intervenção Permanente, o concelho conta com uma equipa de sapadores, que faz sobretudo trabalho preventivo e ainda uma Força Especial de Proteção Civil, que se encontra instalada numa antiga escola cedida pelo município de Guimarães, em Santiago de Candoso.

Na antiga escola estão instalados por estes dias 26 homens e mulheres. O dia está especialmente calmo e durante a tarde descontrai-se ao longo das mesas corridas da antiga cantina da escola. A cantina continua a funcionar – é ali que são confecionadas e servidas as refeições destes profissionais.

Paulo Lino é natural de Beja e está a cumprir o turno de quatro dias como Chefe de Grupo na Força Especial de Proteção Civil de Candoso. Paulo, já tinha estado em Guimarães no ano passado, mas diz que a realidade que encontram é sempre diferente, porque os colegas que são destacados também nunca são os mesmos.

As rotinas em Candoso começam bem cedo, com exercícios físicos que se fazem ali perto na Pista de Atletismo Gémeos Castro. A população local assiste com agrado. Gostam de ver uma força por perto e sentem-se mais seguros. “Volta e meia lá vem um cesto de fruta” – diz Paulo Lino, como forma de descrever a generosidade dos locais.

No final do dia

O dia de trabalho está prestes a completar 12 horas, com o intervalo para a refeição do almoço pelo meio. O sol amarelado pelo fumo enche a sala de Hermenegildo Abreu e ilumina a madeira escura do mobiliário de estilo manuelino. De volta ao seu gabinete, o CODIS dá resposta aos emails que falta responder. Tem Marinha Esteves sempre por perto. A comandante de 43 anos, foi designada e tomou posse na mesma altura que Hermenegildo. Primeiro e segunda comandantes, assim como o chefe de sala Carlos Costa têm de estar em comunicação constante e sempre contactáveis.

Há ainda burocracias a tratar. “Felizmente, cada vez mais, a tecnologia facilita-nos o trabalho”, esclarece enquanto assina eletronicamente um documento que lhe chega por email. O CODIS tem ainda a seu cargo o planeamento de operações de grande dimensão, associados a eventos como a Final Four, que aconteceu em Guimarães ou então a Volta a Portugal em Bicicleta, que é desenhada a nível nacional.

Por volta da hora em que deixamos o Palácio dos Falcões, entra em cena o turno dos operadores que permanecerão em alerta durante a noite. O Comando Distrital é um serviço que funciona sem interrupções durante todo o ano. Mesmo quando não há tantos incêndios, há outras ocorrências e pedidos de socorro que são recebidos pelos operadores na Proteção Civil.

Apesar dos momentos de tensão, a sala de comando permanece sempre tranquila. Assim tem de ser, explica-nos Carlos Costa antes de sairmos. Aqui as decisões são tomadas sob uma pressão extrema. Se do outro lado da linha temos alguém em pânico, deste lado temos de transmitir o máximo de calma possível. Em muitos casos, a única voz que conseguem ouvir é a nossa e isso fica gravado na memória das pessoas.

Reportagem publicada originalmente na edição do jornal Reflexo, de agosto de 2019.