Precipitações
Quinta-feira, Julho 4, 2019

Na última Assembleia Municipal de Guimarães foi rejeitada por maioria uma recomendação do BE no sentido de ser atribuído o nome de Zeca Afonso ao Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor.

A sustentar esta recomendação podia ler-se que «…o poeta, cantor e compositor Zeca Afonso marcou como nenhum outro a música da segunda metade do século XX e que ainda permanece como figura inspiradora de novas gerações de músicos das mais variadas tendências que fazem da sua obra uma fonte inesgotável de possibilidades criativas. Em Guimarães,… podemos e devemos fazer algo mais, através da nomeação da principal sala de espectáculos do concelho com o nome de Zeca Afonso».

Contou com os votos favoráveis do BE e da CDU.

O PS votou contra a recomendação, argumentando que algumas freguesias de Guimarães já tinham ruas com o nome de Zeca Afonso e que a alteração pretendida poria em causa todo o esforço realizado até aqui na promoção da imagem de marca Centro Cultural Vila Flor. O PSD absteve-se, tal como o CDS, utilizando o mesmo argumento do PS respeitante à imagem de marca já criada. Todos tiveram a preocupação de salvaguardar que a posição que assumiram não punha em causa o reconhecimento e a admiração que tinham pelo percurso excepcional da vida e da obra de José Afonso.

O argumento referido pelo PS e pelo PSD, para não aprovarem esta recomendação, não é muito assertivo tendo em conta que a proposta não alterava nada sobre a imagem de marca do Centro Cultural. Se a recomendação fosse aprovada o espaço continuaria a chamar-se Centro Cultural Vila Flor, constituído pelo Auditório Zeca Afonso (ex. Grande Auditório), Pequeno Auditório e Palácio Vila Flor.

Ora, não estando em causa o reconhecimento nem a obra de Zeca Afonso, por quase todos apreciada, ficou claro que a maioria dos deputados não considerou que para perpetuar a obra do Zeca Afonso se deva atribuir o seu nome ao actual Grande Auditório.

Ficou demonstrado que a apresentação da proposta de recomendação para votação foi precipitada porque não teve os cuidados prévios de auscultação dos grupos parlamentares necessários para garantir a sua aprovação. Este processo foi mal conduzido porque não acautelou devidamente todas as partes envolvidas: o bom nome dos deputados e o bom nome de Zeca Afonso.

Em Janeiro de 2018 escrevi que « A homenagem que Guimarães pode fazer ao Zeca Afonso hoje, sem precipitações nem condicionalismos que possam prejudicar a qualidade do que se pretende fazer, terá necessariamente de ser diferente. Porque não, se assim for a vontade de todos, incluir e perpetuar o nome e a obra de Zeca Afonso, de forma digna, na toponímia vimaranense?»

Fica, mais uma vez, o desafio.

Torcato Ribeiro, Julho de 2019