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A pegada dos Dinossauros
Quinta-feira, Novembro 1, 2018

Não vos venho falar de paleontologia. Os Dinossauros deste artigo são figurativos, são nossos contemporâneos, e deixam pegadas bem menos interessantes que as desses seres do passado. O que hoje quero partilhar com os leitores tem a ver com a Mobilidade, um tema recorrente nestes meus artigos, mas bastante atual e premente.

No fim-de-semana passado decorreu a sexta edição das Ecorâmicas, uma mostra de cinema documental que a AVE – Associação Vimaranense para a Ecologia organiza anualmente, e que este ano teve como tema a Mobilidade Sustentável. Os documentários exibidos relevam a importância do planeamento do território, e em especial do espaço público, como determinantes da mobilidade e da sua repartição modal. Relevam ainda que a sua sustentabilidade passa por privilegiar os modos suaves e transportes públicos, em detrimento do transporte individual motorizado.

Na passada segunda-feira foi apresentada a Pegada Ecológica de Guimarães. Um projeto da associação ambientalista ZERO, em parceria com a Global Footprint Network e a Universidade de Aveiro, que visa estimar a Pegada Ecológica e a Biocapacidade dos territórios. Nestes indicadores, que são medidos em hectares per capita, Guimarães tem uma Pegada Ecológica de 3,66 e uma Biocapacidade de 0,19, o que significa que consome 16 vezes mais os recursos que tem disponíveis no município. O peso da Mobilidade na Pegada Ecológica de Guimarães é de 21%.

Em setembro, e aquando da Semana Europeia da Mobilidade, foi inaugurada a nova ciclovia, mas quanto ao Plano de Mobilidade Urbana Sustentável (PMUS), cuja conclusão está atrasada dois anos e já foi anunciada meia dúzia de vezes, nem palavra.

Em julho de 2017, a propósito de um ajuste direto a um gabinete de arquitetura local para elaborar estudo sobre estacionamento, escrevi neste espaço um artigo – O (não) estudo sobre estacionamento, onde se pode ler: “Na verdade, o estudo não passa de uma opinião crítica (mal fundamentada) sobre alguns documentos disponibilizados pelo município, mas onde é bem notória a falta de alinhamento dos autores com o paradigma da mobilidade sustentável que a CMG advoga”.

Uns meses depois, o arquiteto responsável pelo (não) estudo, passou a ser o vereador do Urbanismo da Câmara Municipal de Guimarães e a ter tutela na elaboração do PMUS.

Notem o que foi escrito nesse (não) estudo: “Compreender-se-ia a aposta na pedonalização, na cidade ciclável e na criação de zonas 30 se isso correspondesse a uma ideia estruturada de mudança do paradigama da mobilidade urbana o que não cremos estar a acontecer. O que se tem verificado nos últimos anos é uma quase diabolização do automóvel traduzida numa clara inclinação no desenho dos espaços urbanos para a supressão continuada de lugares de estacionamento no centro da cidade, numa lógica do “politicamente correcto” nunca questionado. Com isto ignoram-se as circunstâncias, adiam-se os problemas para o futuro.”

Alguém receia que todo este atraso no PMUS possa ser uma adequação do plano à linha de pensamento da nova tutela?

Devemos ter especial cuidado para com alguns Dinossauros que andam por aí! Não pela sua grandeza, mas pelos seus pensamentos do tempo jurássico e pelo tamanho das suas pegadas ecológicas.