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Pe Rubens Marques: “É possível globalizar a solidariedade”
Pe Rubens Marques: “É possível globalizar a solidariedade”
Sábado, Maio 16, 2020

Rubens Marques foi ordenado padre a 12 de julho 1987. Passou por diversas paróquias e, desde outubro de 2000, está na paróquia da Senhora da Conceição, da cidade do Porto. O apoio social foi, desde logo, uma das suas preocupações. De um jantar de Natal, partilhado com os mais desfavorecidos, passou, em 2009, para um serviço de jantares que, nos dias de hoje, chega às 400 refeições diárias.

Como começou esta disponibilidade de prestar o apoio aos mais desfavorecidos?
Começou pouco depois de ter sido colocado nesta paróquia. Em 2001 2002, começamos com um jantar de Natal para os sem-abrigo e para os mais pobres. No ano seguinte, apareceram algumas crianças e isso inquietou-nos e mostrou-nos que muitas famílias estavam a precisar de auxílio.

Nesse ano, em 2003, abrimos a sala de atendimento social que estava vocacionada para a distribuição de roupa, mas aberta a colmatar outras necessidades, como o pagamento de gás, uma conta ou outra atrasada de eletricidade ou de água e mesmo apoio psicológico e espiritual. Também começamos a disponibilizar ajuda no preenchimento de documentação a ser entregue nas entidades certas para a obtenção de apoios ou subsídios. Tratou-se de uma oferta da paróquia até 2008.

2008 marca o acentuar da crise económica. De que forma é que a paróquia se adaptou a essa situação de crise generalizada?
Nessa altura, decidimos abrir a “Porta Solidária” com o serviço de jantares aos mais carenciados. O projeto foi sendo implementado e a 9 de fevereiro de 2009 teve o seu primeiro serviço, sempre a funcionar até hoje.

Como foi a evolução do número de refeições servidas.
Foi sempre em crescendo com o agudizar da crise, chegando-se às 300 refeições diárias.

Com o passar da crise e com a oferta de mais empregos essa procura foi diminuindo e passamos para uma média diária, em 2019, de 160 refeições.

A propagação do vírus e as consequências provocadas nos rendimentos das pessoas voltou a que este nosso apoio atingisse valores nunca atingidos.

Que alterações tiveram de implementar com a pandemia da Covid-19?
A primeira foi desde logo passar o serviço para o take-away. Até então, as pessoas sentavam-se e jantavam nas nossas instalações. A partir de 12 de março até ao dia 28 de abril, servimos 14.935 refeições, em que chegamos a um pico de 470 refeições diárias. Nos últimos dias, o valor atinge os 420/430 jantares.

Também se tem notado a diversificação das pessoas que recorrem à vossa “Porta Solidária”?
A crise provoca esse efeito. Facilmente se passa dos sem-abrigo para famílias e, mais recentemente, um grupo mais jovem da população. Trata-se de um grupo que estava a trabalhar na área do turismo, em restaurantes, snacks bares, em esplanadas, com contratos precários ou mesmo sem contratos.

Nota-se uma grande presença da comunidade brasileira que estaria nessas condições. Estava bem integrada, mas foi fortemente atingida por esta crise.

Sabemos que podem aparecer algumas pessoas que não terão muitas necessidades, mas não podemos controlar isso. Mas, o facto de as pessoas terem de estar numa fila, faça chuva ou sol, é um indicador de que precisam de ser ajudadas. Quem não precisa dificilmente virá aqui.

Quantas pessoas estão envolvidas neste projeto solidário?
Nós, a partir de 12 de março, tivemos de proceder a uma mudança na equipa. Tínhamos um grupo de pessoas já com uma certa idade, que colaboravam, e que, por estarem no grupo de maior risco, tiveram de cumprir as normas de confinamento social.

Lançamos uma campanha de angariação de alimentos e de voluntários. A resposta foi positiva e temos dois grupos, de 31 pessoas cada, a trabalhar alternadamente, 62 pessoas a trabalharem de forma voluntária.

Como é que se consegue essa disponibilidade?
As pessoas ficam sensibilizadas com a realidade e somos um povo que mostra a sua solidariedade nos momentos mais complicados.

E em termos de produtos, também se verifica essa solidariedade?
Para já, sim. Devo dizer que a maior parte das ofertas são de particulares que aparecem com os seus carros, com as malas cheias, mas também temos muitas empresas, diversas associações da cidade do Porto e de paróquias da cidade e ainda anónimos que transferem algumas verbas que nos permitem comprar as embalagens para servirmos o jantar.

Em que consiste essa refeição?
Servimos o jantar das 18h às 20h e a refeição é composta por um prato quente, uma sopa e um pão, três sandes, uma fatia de bolo, três peças de fruta e dois iogurtes.

Em termos de custos?
Valorizando essa refeição em três euros, estamos a falar de 44.805 euros, desde o dia 12 de março deste ano.

Esta “Porta Solidária” é caso único no Porto?
Nestes moldes poderei dizer que sim, mas outras paróquias estão a desenvolver outro tipo de apoio social.

Este projeto exige muito tempo. Como consegue conciliar com os outros serviços ligados à condição de padre de uma paróquia com as características da Senhora da Conceição?
O serviço de caridade, nas suas variadas formas, não desvia do serviço de padre, complementa. Estamos a falar da essência da igreja, aprendemos com Jesus Cristo a estarmos no mundo para servir as pessoas, nas suas necessidades materiais e nas espirituais. Somos uma igreja de “portas abertas”, como diz o Papa Francisco, quer para acolher ou sair à procura das pessoas que necessitem.

Estamos num estado de emergência que condiciona a nossa atividade, isso é certo.

Como têm ultrapassado esse estado de confinamento?
Temos apostado no mundo digital e nas redes sociais. Celebro a missa à porta fechada, a igreja está aberta das 9h às 19h, para oração individual.

As pessoas estão ansiosas por participar nas eucaristias presencialmente, que é a grande manifestação da igreja, e são os batizados e matrimónios que estão a ser adiados. Por outro lado, gostaríamos de retomar o mais rapidamente possível a assistência espiritual aos doentes e idosos da nossa paróquia.

Quais as consequências desta situação para a igreja e para a própria sociedade?
Era importante aprendermos a olhar a pobreza de frente. Depois da crise de 2008, rapidamente se voltou à subsiodependência. Temos todos de repensar e atuar de forma a eliminar a pobreza em Portugal. Há pobreza extrema em Portugal. Os pobres dos mais pobres são aqueles a quem chegam rapidamente as consequências destas crises.

A subsiodependência não resolve o problema da pobreza, exige outro tipo de atuação. Temos cada vez mais famílias e jovens a desistir da vida, devido à pobreza.

Espero que se trabalhe para se criar mais igualdade, um sentido de justiça e solidariedade maior, uma sociedade mais humana do que tecnocrata. O homem tem de voltar a ser o centro da sociedade, o bem maior da humanidade. Uma sociedade tecnocrata é o lucro, é o sucesso individual à custa do coletivo.

A igreja está cada vez mais desafiada a estar no mundo para servir, e temos de repensar o modo de estar próximo dos fiéis num tempo que nos vai exigir um certo distanciamento físico e mesmo com a proibição de grandes assembleias nas igrejas.

Vamos ter de aguardar as indicações da conferência episcopal e do próprio governo.

Uma mensagem final.
Somos capazes de ser solidários e próximos uns dos outros e estarmos disponíveis. As crises também podem ser oportunidades recriadoras. Espero que esta crise alavanque o que de melhor temos em nós, de forma a criarmos um tecido social mais justo e pacífico e de maior empenho na defesa do ambiente. É possível globalizar a solidariedade.

Vivi a minha infância, juventude e início da idade adulta nas Taipas. Tive a felicidade de estar inserido numa paróquia muito dinâmica, nos escuteiros e associações desportivas, num ambiente de fraternidade e partilha que me ajudou a crescer com este horizonte mais aberto de disponibilidade junto das pessoas. Tive e tenho muitos e bons amigos, com todos vivi o amor de Deus, a boa convivência, a fraternidade e o empenho no bem comum. São estas as minhas raízes.