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Pe José Agostinho Ribeiro: “Não é permitido desânimo”
Pe José Agostinho Ribeiro: “Não é permitido desânimo”
Bruno José Ferreira
Domingo, Abril 5, 2020

José Agostinho Ribeiro está na paróquia de Caldas das Taipas desde 29 de setembro de 1991. Já passou por muitas situações nesta sua passagem pela vila, mas nunca, como refere, “nos pesadelos mais sombrios”, pensava viver uma situação como a causada pelo Covid-19.

O isolamento social trouxe um conjunto de problemas a que a igreja tenta dar resposta. O Pe José Agostinho Ribeiro entende que esta nova realidade vai ajudar a Igreja a repensar alguns caminhos e lança o desafio à comunidade de que “não é permitido o desânimo”.

Como tem gerido, junto da paróquia, as determinações impostas pela gestão do Covid-19?

Tratando-se de uma pandemia muito séria, procuramos dar seguimento às orientações do Arcebispo Primaz da nossa Diocese e das autoridades civis e de saúde, ou seja, suspendemos todas as atividades e celebrações comunitárias, no sentido de evitar a aproximação, o encontro ou contacto pessoal, aconselhando-se o acompanhamento dos diversos momentos formativos e celebrativos através dos meios de comunicação social, TV, Rádio ou Internet.

 

Como têm reagido as populações, principalmente o setor com mais idade, mais vulneráveis ao vírus e, ao mesmo tempo, mais frequentadoras diárias das celebrações eucarísticas?

Pelo que me tenho apercebido, as pessoas, de uma maneira geral, foram tomando consciência da gravidade da situação que estamos a viver e compreenderam que estas suspensões ou cancelamentos eram inevitáveis. O Covid-19 era para levar a sério e, portanto, não deveríamos correr riscos.

 

O isolamento social faz-se sentir com grande peso na paróquia? Existem casos assinalados e acompanhados?

Felizmente, neste nosso território pastoral, existem instituições preferencialmente orientadas para o serviço social. No entanto, como um todo, também a comunidade paroquial tem procurado estar atenta e ajudado, quer individualmente, quer também através dos grupos de solidariedade que estão no terreno, de forma silenciosa, mas efetiva. Estamos em isolamento social, mas não afastados das pessoas, sobretudo das que mais possam precisar que nos aproximemos.

 

Na altura da Páscoa, também se registava uma maior procura pelas confissões. Como será feita essa gestão?

Conhecedores da situação e interessados na contenção do coronavírus, cabe-nos a todos lutar contra as possíveis fontes de contágio. Por isso também, este serviço de confissões não se realizará nesta altura.

 

Pela primeira vez, desde que há memória, na Páscoa não vamos ter (com público) as celebrações tradicionais, caso da Semana Santa e dos Compassos. Como é que este cenário está a ser preparado ou a ser encarado?

Encontramo-nos numa situação extraordinária. A festa da Páscoa, vitória da vida sobre a morte, neste contexto, será também oportunidade para interiorizarmos os compromissos que daqui advêm. Este ano a Páscoa, nas suas manifestações, será diferente: mais em família, igreja doméstica. Cada família, no aconchego do lar, saberá, certamente, viver este momento como verdadeiro encontro com o ressuscitado. Para além das já conhecidas possibilidades de acompanhamento das celebrações da Semana Santa e Festa Pascal, também a Conferência Episcopal Portuguesa irá apresentar mais algumas orientações para a vivência deste tempo solene e festivo, base da nossa fé. Entretanto, para que os fiéis tomem consciência da absoluta centralidade da Ressurreição para a nossa fé, no Dia de Páscoa, os sinos tocarão algumas vezes ao longo do dia, de acordo com a tradição.

 

Como é que a população, os fiéis, têm reagido a todas estas medidas?

Estas medidas das autoridades, que nos são recomendadas e impostas, são sempre difíceis e “dolorosas”… Mas, de um modo geral, acho que as mesmas estão a ser compreendidas como necessárias e praticadas com muita responsabilidade e solidariedade.

 

A situação foi evoluindo (Covid-19), alguma vez pensou chegar a esta realidade? Como foi gerindo essa evolução?

Acho que ninguém, “nem nos pesadelos mais sombrios”, como refere o testemunho de um médico italiano, imaginava ver e viver tudo isto que tem vindo a acontecer, com o “pesadelo a fluir e o rio a ficar cada vez maior”. O momento é ainda de muita incerteza, e todos somos chamados à responsabilidade, “de cada um por todos e de todos por cada um”. Estão a ser usados os novos meios de comunicação, nesta ocasião concreta, como meio de exprimir a proximidade espiritual da Igreja com a Comunidade.

 

Nestas contingências, há alguma forma de atenuar a situação, religiosamente pensando, ou que pensa desenvolver em termos concretos na paróquia?

Não se pense que por terem sido suspensas as celebrações comunitárias acabou a oração e o culto. Entretanto, por outro lado, este momento será, certamente, ocasião para uma revisão de vida, em ordem a uma renovação também do ponto de vista cristão”. Algum “deserto” também pode ser purificador. Este ano, Deus chama-nos a viver a Páscoa em casa, em família, o que não quer dizer deixar de celebrar a Páscoa.  

 

Que consequências é que toda esta situação pode ter na Igreja?

O Senhor Arcebispo pede que “perante o mal comum, nos apaixonemos verdadeiramente pelo bem comum”. E, insistindo, refere que “o bem comum é o bem de todos, que deve ser procurado por cada um, sabendo ler os sinais dos tempos». O Arcebispo Primaz salienta ainda que «há coisas que não podemos ignorar e devem conduzir à conversão das vidas e das estruturas”. D. Jorge Ortiga salienta a vulnerabilidade que todos agora vivem: «este vírus faz de todos nós semelhantes perante a morte, o direito à vida e à saúde. Todos somos vulneráveis».

Com certeza, nem os responsáveis cimeiros sabem ainda o que vai acontecer. Sabe-se que a vida não será como foi até aqui. Também no âmbito eclesial, talvez, muita coisa possa e deva ser repensada ou reconstruída, priorizando o essencial e os verdadeiros valores… Mas, essencialmente, não nos é permitido o desânimo.