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Parque Camões: Debate sob a égide de uma decisão definitiva
Parque Camões: Debate sob a égide de uma decisão definitiva
Terça-feira, Maio 23, 2017

Na espécie de prós e contras desta segunda-feira, 22, no Salão Nobre da Sociedade Martins Sarmento, ouviram-se as vozes a favor da construção do parque de estacionamento Camões/Caldeiroa, nomeadamente vinda dos comerciantes da zona, e contra a infra-estrutura. Um dos argumentos é a alegada falta de estudos. Já a Câmara tem a decisão há muito tomada e deverá aprovar a adjudicação da construção do parque já esta quinta-feira, em reunião do executivo.

Mais de 100 pessoas acorreram à sessão informativa convocada pela Câmara sobre o Parque Camões. O arquiteto Raul Roque, responsável pelo projeto, explicou as premissas em que se baseia a obra: 440 lugares de estacionamento, menos 60 lugares do que estava previsto no projeto inicial por terem sido descobertos tanques de curtimenta de uma antiga fábrica e que devem ser preservados. Garantiu ainda a preservação de caminhos antigos que hoje estão votados ao abandono e que serão recuperados com a obra.

Já o arquiteto Filipe Fontes, da Câmara de Guimarães, destacou que a obra serve para cumprir três objetivos: fornecer lugares de estacionamento aos moradores da zona, colmatar a retirada de carros do centro histórico e consequente retirada de lugares de aparcamento, e dinamizar aquela zona. A arquiteta Alexandra Gesta, uma das responsáveis pela recuperação patrimonial do centro histórico, disse que, para não haver problemas – da mesma natureza dos que se registaram em 2001 aquando da recuperação do edifício que serve hoje a Fraterna e que está inserido na zona de Couros –, propôs ao presidente da Câmara pedir um parecer ao ICOMOS (Comissão Nacional Portuguesa do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios) sobre a obra. Esta entidade ainda não se pronunciou.

Discussão extemporânea

Foi Alexandra Gesta que classificou a sessão informativa de ontem, que se transformou num debate, de “extemporânea”, “na medida em que há muito tempo que se fala disto”, realçando que “nós, técnicos, damos pareceres, o executivo decide”. Apesar de estar disponível para ouvir todos os intervenientes, Domingos Bragança reafirmou que a decisão estava tomada e que a proposta de adjudicação do parque de estacionamento vai ser submetida à apreciação da vereação municipal esta quinta-feira.

Uma das principais vozes contestatárias foi a do professor e artista Max Fernandes, que integra um movimento que desenvolve o seu trabalho numa das fábricas abandonadas da Caldeiroa. Primeiro, começou por apontar o exemplo da situação dos parques na última sexta-feira, 19, em que ao centro de Guimarães foram subtraídos 750 lugares de estacionamento com a realização do Guimarães no Ponto (bolsa de aparcamento gratuito do Parque das Hortas) e a feira semanal (também com bolsa de aparcamento gratuito todos os dias com exceção da sexta-feira). À mesma hora, recorrendo a fotografias, demonstrou que parques de estacionamento com gestão privada, como é o caso do Triângulo e do S. Francisco Centro, tinham vários lugares disponíveis.

Explicitou ainda que a construção do parque vai destruir a dinâmica artística que se desenvolve naquela zona, suprimindo património arqueológico como tanques de fábricas dos anos 40/50 e caminhos antigos. Questionou ainda os estudos que fundamentam esta decisão camarária, questão que serviu de base para várias intervenções como foi o caso do ambientalista José Cunha ou de Wladimir Brito, candidato pelo Bloco de Esquerda à Câmara. “Onde estão os estudos de taxa de ocupação, impermeabilização dos solos, impacto sobre os edifícios, para onde vão os gases expelidos?”.

O presidente respondeu que há vários estudos feitos mas estas perguntas ficaram por responder, à exceção da questão da impermeabilização que foi referida por Filipe Fontes. Destaque ainda para a intervenção do arquiteto Fernandes que chamou a atenção para o facto de “estarmos a discutir um assunto do terceiro quartel do século XX [construído] para muita gente que o vai pagar e viver no século XXI”. Os modelos de mobilidade urbana também estiveram em cima da mesa com vários intervenientes a defender os transportes públicos em lugar de trazer mais carros para o centro da cidade.

Quem parece estar bastante satisfeito com a obra são os moradores e comerciantes da rua: “Aquele quarteirão agora é uma selva de lixo e de ratos e este projeto vem devolver a vida à rua”, disse um dos comerciantes, que sugeriu para que se abata duas paredes para que as pessoas vejam o que o cenário atual. Também o padre Antunes, responsável pelo Patronato São Sebastião, disse ser “urgente” esta intervenção numa altura em que o imóvel que alberga a instituição que dirige está a passar por obras de reabilitação.