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Para memória futura
Quinta-feira, Junho 11, 2020

Há um mês atrás, o Reflexo publicou esta notícia onde podemos constatar o tardio despertar da Junta de Freguesia (JF) para a crise social que se sente e, para a qual, a sociedade civil já se tinha mobilizado, na tentativa de dar resposta, como foi exemplo disso a Caixa Solidária, ou do Rock e Rojões.

A tardia reação da JF não é novidade, nestes 3 anos este executivo já nos habituou a um silêncio inoperante, ninguém vê os membros da junta no terreno. Não fosse os dois ou três simpatizantes mais aguerridos que continuam a fazer o trabalho de sapo de andar de porta em porta a distribuir propaganda, ou a destilar ódio nas redes sociais, e a página de Facebook da JF que só debita campanha oca, e nem nos lembraríamos que existe uma Junta de Freguesia nas Taipas.

Se antes a JF tinha um movimento constante de fregueses a entrar e a sair, com a porta sempre aberta para os receber, sem formalidades de marcação de audiências, sem títulos de doutores a separar as pessoas, agora a história é outra. O que era um órgão de proximidade é agora, apenas e só, um órgão político, um instrumento para os interesses partidários.

Mas, não é a inoperância ou o pedantismo da Junta que se me estranha, antes aquele último parágrafo da notícia que aqui transcrevo:

A Junta de Freguesia de Caldelas indica ainda às pessoas que possam estar em situação de vulnerabilidade para entrarem em contacto com os serviços da junta (Atendimento Quarta-feira 14h00 – 17h00 ou outro horário sob marcação; Dra. Susana Felgueiras – Email: susanafelgueiras@caldasdastaipas.com)

Estranha-se-me o caricato da situação, porque é só ridículo que alguém em situação de vulnerabilidade, e estamos a falar de acesso a alimentos, só possa pedir ajuda às quartas-feiras das 14 às 17h. Mas sobretudo estranha-se-me o facto de a pessoa responsável não ser ninguém dos quadros da JF e aparecer identificada como “serviços da junta”.

A Dra. Susana não é funcionária da JF, e também não é eleita, e sequer é das Taipas para poder puxar do argumento do conhecimento da realidade local. Então quem é a Drª, que tem inclusive um email institucional e acesso a dados pessoais sensíveis dos fregueses? E como é que se garante que alguém que não pertence à JF, cumpre o dever de confidencialidade e os deveres de sigilo profissional previstos na lei? Como é que a Drª Susana chegou à JF?

Seguindo a lógica de funcionamento do PS Guimarães, desconfiei que seria alguém ligado à máquina do partido. Não me enganei, a senhora em causa é esposa de um membro da concelhia do PS Guimarães, liderada pelo Presidente da Junta das Taipas.  Desconheço a natureza do vínculo da doutora à JF, se é voluntária, se é paga. Sei que há um concurso público aberto para a ocupação de um posto de trabalho na secretaria e, não me admiraria, se o mesmo já tivesse destinatário.

Infelizmente, já estamos habituados a que, no nosso concelho, o cartão de militante do PS valha mais que qualquer currículo académico e profissional. O nepotismo, além de um exemplo de corrupção e um atentado à competência dos serviços públicos, é uma séria ameaça à democracia, por um lado, pela tremenda injustiça na desigualdade no acesso ao emprego público, por outro, ao minar as instituições públicas com funcionários com outras agendas que não o serviço público e a isenção que este obriga. Em nome dos valores democráticos em que teimo em acreditar, espero sinceramente que a minha linha de raciocínio esteja errada e, que, daqui a uns tempos, este texto, em tom de aviso de quem está atenta, não seja recuperado para ilustrar o nepotismo na JF.