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Palavras Mágicas
Terça-feira, Janeiro 12, 2021

Há uns anos, “croniquei” sobre a palavra OBRIGADO/A, tão pequena e tão rica em conteúdo semântico (a nossa é a única língua em que a palavra expressa obrigação de estar grato) e tem um poder enorme para abrir portas ou dar oportunidade de saltar por janelas que jamais sonharíamos poder tão facilmente franquear.

Não sei se disse na altura, mas repito, que Camões e outros autores, no século XVI, ainda não empregavam a palavra para expressar gratidão – ela só valia mesmo para se referir a uma ação que alguém realizasse contra a sua vontade, como na frase “fui obrigado a fazer o trabalho”. Na época, ainda se usavam as palavras lusófonas equivalentes de gracias e grazie, como “agradecido” e “grato” (além da expressão “bem haja”). O “obrigado/ obrigada” só ganhou novo significado no século XVIII no código oral e no século XIX no escrito, ao entrar na língua portuguesa como uma forma reduzida da expressão “obrigado a Vossa Mercê” – uma forma de se obrigar a retribuir um dia, como no atual “fico-te a dever essa”. Todas as outras línguas se ficam pelo agradecido, grato.

Neste mesmo campo das palavras mágicas e com um poder ainda mais sólido, temos PERDOA ou DESCULPA. “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti e nunca terás de pedir desculpa”. Mas, as faltas cometem-se e é importante que, desde cedo, o jovem reconheça o valor incalculável desses trissílabos preciosos. Reconhecer os erros é um ato de humildade e de contrição, é retirar todo o peso da culpa que se lança para os ombros de alguém que, inocente, não tem de arcar com as consequências e, em simultâneo, livrarmo-nos da própria culpa que nos enche de amargura, de mágoa, de dor.

Eu sei uma palavra mágica” disse o João na catequese. “Que palavra?” quis saber a catequista. “Perdão” respondeu muito sério o João, os olhitos verdes a brilhar na carinha redonda emoldurada por caracóis louros. A assistir casualmente à aula de catequese, que o meu mais novo frequentava, já lá vão mais de vinte anos, nunca mais esqueci a cena. Como é maravilhosa a ingenuidade das crianças! E como soube captar na perfeição o poder da palavra. Magia! Há realmente palavras mágicas, temos é de aprender a utilizá-las com frequência.

Na mesma onda, há outras expressões com grande peso social COM LICENÇA, POR FAVOR que, infelizmente, também estão a cair em desuso. Porquê? Porque é que as regras de cortesia e da boa educação deixaram de ser veiculadas? Sem querer ser saudosista e bater no ceguinho (que não vale a pena!), no meu tempo, todas elas saíam esporadicamente e todos (os bem educados, claro!) as diziam. A boa educação não se media pelo tempo que se andava na escola (e ainda bem, pois a maioria andou muito pouco!), via-se nos modos que as pessoas apresentavam no trato social e que revelavam muito do que se passava em casa.

Nunca o professor foi contestado e, se, por acaso, tivesse havido um tabefe, era engolido ou corria-se o risco de levar outro, desta vez ministrado pela mãe ou pelo pai. Hoje, os meninos desfazem-se se o professor os repreende e os pais são manipulados e correm a defender as crias sem averiguarem as causas que estiveram na base do castigo. E já não falo da bofetada pedagógica que acarretaria um processo disciplinar ao responsável: professor ou funcionário. Que eu saiba, os da minha geração, que levaram reguadas, canadas e tiveram outro tipo de castigos – ficar sem recreio, ter de escrever uma determinada frase cem ou duzentas vezes… – não ficaram traumatizados por isso. Agora as crianças já nascem traumatizadas…

A educação sempre coube em qualquer lugar, a qualquer hora, independentemente das pessoas. Agora, quando há um miúdo bem-educado (educado à antiga) que utiliza as tais palavras mágicas sobressai, pois estamos desabituados de as ouvir. A ordem é direta “Dê-me isto!” ou “Faça-me aquilo!” e, embora eu vá resmungando os meus “Por favor, também se cá usa!”, a verdade é que se vão usando pouco. E piora em casa onde o tratamento passa a ser o incisivo TU – “Dá-me… faz… compra…” – e não se aceita a recusa.

Isto para não falar dos adultos que são pais e parecem nunca ter ouvido falar em tais coisas. Como podem ensinar o que desconhecem? A educação começa em casa. A escola só a complementa e enriquece. E quando ela não existe e se abstém de exigir regras é um trinta e um. Posso estar aposentada mas lido com colegas que ainda estão no ativo e sei do que falo, basta ouvir os jovens.

E a pandemia só veio complicar o que estava já mais que complicado. Só assim se podem entender algumas atitudes face aos conselhos dados e às medidas tomadas. A regra é contornar a medida, adaptá-la à sua vontade… O professor não é consultado e está muitas vezes distante, por estar doente com a Covid-19 ou outra doença bem mais grave (que agora é posta de lado por causa deste estado pandémico!), por estar de quarentena, por ter de tomar conta dos filhos que têm a escola fechada…

E entrámos num ciclo vicioso que não se sabe quando vai acabar.

Por isso, aproveite o maior contacto com os seus filhos e, POR FAVOR, ensine-os a dizer DESCULPE, OBRIGADO/A e COM LICENÇA q.b., para que voltem a figurar no vocabulário básico da Língua Portuguesa e das regras da boa-educação.

E aconselhe-os a andar de máscara em todas as situações por causa deles e dos outros.

Numa época em que se dá tanta importância à EDUCAÇÃO PARA A CIDADANIA, façamos com que os nossos filhos sejam efetivamente cidadãos de corpo inteiro.