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Os soltos
Quinta-feira, Maio 14, 2020

Antes da Nova Era Covid19, o nosso mundo- aquele que nos entra porta dentro- já era preenchido por notícias e imagens de grandes dramas e catástrofes que expostas com o enfase dos mensageiros, exímios na arte de ampliar desgraças, eram capazes de por em causa toda a humanidade.

Com a entrada da Nova Era Covid 19 o “filme” passou a ser outro, com outro enredo, e os grandes e inultrapassáveis problemas que nos deparávamos anteriormente foram  completamente suspensos das nossas vidas como que por artes mágicas, deixando de fazer parte do universo das nossas preocupações diárias. Fica no entanto uma sensação idêntica àquela que sentimos quando vamos ao cinema e a sessão é interrompida a meio por razões alheias à nossa vontade, e não conseguimos ver o final do filme.

Quando tudo isto passar e, à falta de assunto mais apelativo no momento, talvez possamos saber a situação e a sorte a que foram deixados os refugiados, como está a decorrer o conflito provocado por ingerência estrangeira na Siria, se o Guaidó – o Autoproclamado – já manda na Venezuela ou se continua a ser pau mandado de interesses estrangeiros e, não menos importante saber, até porque o futebol vai retomar a sua actividade, em que ponto está o caso Marega, etc.

Na altura certa, estes “filmes” em suspenso, entrarão novamente em cena para continuarem a compor os noticiários diários, retirando espaço mediático para mostrar os verdadeiros problemas do país e de, a pretexto do combate à pandemia denunciar a retirada de direitos e rendimentos a milhares de trabalhadores aumentado as suas dificuldades.

O mundo não ficará como dantes, e não ficará melhor se baixarmos a guarda na defesa dos direitos de quem trabalha. Não podemos ignorar os sinais que hoje nos vão chegando clarificadores do verdadeiro caracter de muita gente que, levada pela onda, deixou estalar o verniz. Tolhidos pela pandemia foram aprisionados pelo seu maior efeito colateral: o medo. E a junção do medo com o isolamento a que voluntariamente se permitiram dedicar, longe do contacto com as pessoas e do mundo, passaram a utilizar um outro discurso, velho mas diferente daquele a que estávamos habituados.  O resultado do confinamento despertou neles algo adormecido, e sentem-se confiantes para debitar o bafio que realmente lhes vai na alma: um grande ódio aos trabalhadores e a todas as estruturas sindicais e partidárias que os representam e defendem.

Parece que para estes “soltos” não haverá amanhã e, assim sendo, vão destilando doses cavalares de fel contra os outros, leia-se: aqueles que não pensam nem agem como eles. Quando tiverem que sair e enfrentar a realidade, encontrarão pessoas que fizeram o que melhor sabiam para lhes garantir o conforto que usufruíram durante o seu período de reflexão e confinamento. Pessoas que, vencendo medos, se mantiveram sempre nos seus locais de trabalho, garantindo o funcionamento do país, seja na linha da frente ou seja na rectaguarda. Muitos não tiveram opção mas todos foram necessários para combater e minimizar os efeitos nefastos do vírus na vida das pessoas.

No pasaran!

Torcato Ribeiro, Maio de 2020