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Os reféns do centro histórico
Quinta-feira, Março 7, 2019

A cidade anda há semanas a discutir um equivoco. O de que a Feira Afonsina vai mudar de lugar. Um equivoco criado por um misto de inabilidade na comunicação por parte da autarquia e incompetência da imprensa local.

A Feira Afonsina não vai mudar de lugar. Vai ficar exactamente nos mesmos sítios onde tem estado, desde que foi criada em 2012: o centro histórico de Guimarães. E isso corresponde à área das duas vilas em torno das quais se criou a actual cidade. O que inclui, evidentemente, a envolvente do castelo. Toda essa área está classificada pela Unesco como património mundial. Não há aqui novidade alguma.

Desde o dia 1 da Feira Afonsina que esta acontece também por ali – entre o Carmo, o Paço dos Duques e o Castelo. As principais recriações históricas associadas ao evento têm, de resto, tido lugar naquela área que, pela sua dimensão mais desafogada, quando em comparação com as praças e ruas da vila de baixo, têm as condições ideias para uma realização desse tipo. Só por absurdo se poderá falar num novo palco, como já por aí vi escrito. A Feira Afonsina vai mudar, isso é certo. Mas não vai ser deslocalizada.

É, pois, provável que algumas das reacções que se sucederam nas últimas semanas tenham assentado no equívoco de que falo. Se eu próprio não me tivesse tentado informar melhor sobre aquilo que estava em causa, talvez tivesse também pensado que a autarquia se preparava para, pura e simplesmente, retirar as praças e ruas da vila de baixo da Feira Afonsina. Não é o que está em causa.

O que está em causa é uma das poucas decisões acertadas na construção da cidade tomadas neste mandato – na semana em que se começa a concretizar o disparate de um novo tribunal nos arrabaldes e em que volta a falar-se no fetiche que os políticos locais têm por estradas, túneis e outras estruturas que envolvam espiche, percebe-se que as mudanças na Feira serão uma excepção à regra.

Ao retirar das ruas e praças – e da zona mais densamente habitada e frequentada – da vila de baixo do centro histórico alguma da pressão que tornou o evento um momento verdadeiramente infernal para quem ali mora e um suplício para quem por lá tenta passar, a autarquia dá um passo na direcção correcta. Defende a cidade e os seus moradores.

Já há muito que venho escrevendo sobre os excessos de utilização do centro histórico e a sua transformação em parque de diversões ou palco de eventos vazios de significado. Mas nunca é demais recordar que se o centro de Guimarães está hoje classificado internacional é porque ali vive gente. Se se mantiver a sua utilização sem critério dos últimos anos, não sobrarão muitas pessoas que ali queiram viver. As mudanças propostas na Feira Afonsina respondem positivamente a estas preocupações.

Com uma ou outra excepção, vi poucas reflexões sobre esta dimensão nas últimas semanas. Nem vi nenhuma referência às cada vez mais difíceis condições de vida de quem há muito habita o centro histórico e que tem hoje que conviver com o excesso de ruído e a abusiva utilização das suas ruas e praças.

Vi, pelo contrário, várias reacções dos comerciantes que ali têm os seus negócios. São negócios legítimos e preocupações legítimas. Já também por aqui escrevi também sobre as dificuldades em compatibilizar o direito ao descanso de quem vive no centro histórico, com as expectativas de quem o usa como espaço de lazer e os negócios ali instalados. O que não se pode aceitar é que só os negócios sejam uma prioridade quando se discute e decide sobre essa matéria. Isso implica tratar os habitantes do centro histórico como reféns. E isso é inaceitável.