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Os moinhos dos rios Torto e Febras
Quinta-feira, Junho 8, 2017

Alguns dos moinhos em ruínas, no curso do rio Torto.

Afluente do rio Ave, percorrendo um trajeto relativamente curto entre os montes da Freguesia de Sobreposta, em Braga, e os terrenos planos das proximidades de Caldelas, no Concelho de  Guimarães, o Rio Febras, também conhecido como rio da Várzea, da Agrela ou de Briteiros, dependendo dos locais por onde passa, caracteriza-se pela profusão de moinhos hidráulicos ao longo do seu percurso. Partilha esta característica com o curso de água que nele desemboca, o rio Torto.

Estes moinhos, que outrora se usavam para moer cereais, particularmente milho, eram uma forma (ecológica, diríamos hoje) de aproveitar a força motriz das águas. Força que era também aproveitada para o funcionamento de lagares de azeite e serrações, dos quais se conhecem menos exemplos. Terão sido construídos sobretudo na Idade Moderna, alguns nos séculos XVII e XVIII, mas a maioria provavelmente entre os séculos XIX e XX. Conta-se que ao longo do percurso destes dois rios existirá centena e meia de moinhos (ou mais, segundo outras fontes), aspeto que cremos estar relacionado com a capacidade motriz destes cursos de água, na sua descida para Briteiros.

Quase todos os moinhos deste conjunto estão em ruínas, posto que desde há décadas se não utilizam, fruto da industrialização da moagem, ou mesmo do decair da cultura dos cereais para panificação, que são hoje maioritariamente importados… Por uma razão ou outra, os moinhos hidráulicos perderam a sua utilidade e, consequentemente, deixou de se fazer a sua regular manutenção, e o estado de abandono adveio. Apenas o moinho da Quinta da Ponte, em Briteiros, se mantém de pé, dando uma ideia de como funcionavam estas estruturas.

O falecido Engenheiro Inácio Vasconcelos, residente na “Casa da Igreja” da freguesia de São Salvador de Briteiros, apaixonado por este vasto património etnográfico, lutou durante anos pela salvaguarda destes moinhos, criando mesmo a “Associação Recreativa e Cultural dos Moinhos dos Rios Torto e Febras”, que todavia existe, e organiza anualmente, com a Comissão Social Castreja, a célebre “caminhada dos moinhos”. A mesma caminhada/convívio, que este ano se realizou no passado dia 14 de Maio, percorre uma parte do trilho pedestre PR2 Rota da Citânia, que passa pela zona onde se veem mais exemplares de moinhos hidráulicos.

Contudo, sendo na sua maioria propriedade privada, estes velhos moinhos em ruínas carecem de intervenções de conservação, no sentido de contrariar a sua natural degradação e progressivo desaparecimento. Já para não falar no próprio curso dos dois rios, cujas margens estão em vários pontos povoadas de mimosa. É neste contexto que, mais uma vez, aqui mencionamos a iniciativa conjunta dos municípios de Guimarães e Braga, o “Programa Intermunicipal de Salvaguarda da Paisagem dos Sacro Montes”. Permita a implementação deste projeto o mapeamento dos moinhos dos rios Febras e Torto e, porque não, propiciar uma utilização futura, nos domínios da Cultura, do Turismo e da Ecologia.