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Os Centros de Saúde na Dinamarca: uma experiência diferente!
Quinta-feira, Janeiro 18, 2018

Nos países nórdicos, que incluem a Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega e Suécia, a Medicina Geral e Familiar (MGF) é reconhecida pela sua qualidade e eficiência. As pessoas têm uma grande admiração pelo seu Médico de Família, reconhecendo nele o primeiro e principal meio de acesso a cuidados de saúde.

Em junho de 2016 participei numa conferência europeia para médicos de família que se realizou em Copenhaga, capital da Dinamarca. Através dessa conferência, fui convidada a fazer uma visita particular a uma unidade de saúde de Medicina Geral e Familiar, numa perspetiva de conhecer de perto o seu funcionamento e partilhar a minha realidade.

Fora a diferença linguística, que incluía as letras æ, ø e å, a maior dificuldade foi mesmo encontrar o centro de saúde, ou pelo menos era isso que eu esperava encontrar. Tinha a direção, o e-mail e o número de telefone. Peguei no mapa da cidade, e fui ter a uma entrada de um prédio, aparentemente de habitação numa avenida de Copenhaga. Não havia qualquer sinalética ou edifício que se aparentasse com uma unidade de saúde. Dirigi-me a uma farmácia no número do lado, mas disseram-me que de facto a morada que eu tinha era ali. Senti-me perdida. “Talvez tenha havido algum engano!”, pensei eu. Mas de repente, lembrei-me de ir à entrada do n.º 142. Tratava-se de uma porta alta e larga, de madeira e pus-me a admirar os interruptores das campainhas. Foi quando me deparei com o nome “Lise Villumsen”. Pensei “Mas que estranho! Será que mora aqui?”. Carreguei no interruptor e responderam. Subi umas escadas antigas até ao 1.º esquerdo e entrei no que parecia realmente um apartamento: havia um hall e no fim do corredor acabei por encontrar uma pequena sala de espera. O primeiro impacto que tive foi este contraste com a realidade portuguesa, na qual as unidades de saúde se encontram, normalmente, bem sinalizadas e identificadas.

Fui muito bem recebida pela Dr.ª Lise Villumsen, médica de família. Havia já uma mesa redonda com fruta, biscoitos e água, e cinco médicos de família de nacionalidades diferentes. Só faltava mesmo eu. Estivemos em conversa informal sobre as diferenças de funcionamento do sistema de saúde e fizemos uma visita às instalações.

Comecei por perceber que os centros de saúde na Dinamarca são “clínicas” tipicamente pequenas em termos de recursos humanos (até três ou quatro médicos com um ou dois enfermeiros que podem também ter funções de secretariado) comparativamente à nossa realidade (por exemplo, a USF onde exerço funções dispõe de 8 médicos de família, 5 internos de especialidade, 6 enfermeiras e 5 secretárias clínicas). Neste caso, a equipa era formada apenas por uma médica e uma enfermeira. Cada médico é responsável por uma lista média de 1600 utentes, contra uma listagem de cerca de 1900, no caso de Portugal. Durante o período de um ano, cerca de 85% dos utentes têm pelo menos uma consulta com o seu médico.

Outra diferença é a existência de laboratório de análises em algumas clínicas ou a realização de colheitas pela enfermeira, que são enviadas para laboratórios convencionados, tornando o acesso a análises mais rápido e cómodo para os doentes e para o próprio médico.

Os médicos são proprietários das próprias clínicas, como trabalhadores por conta própria, o que lhes confere um grau elevado de autonomia e de gestão do trabalho, apesar de se regerem pela legislação nacional, sob um contrato com as autoridades regionais de saúde locais, que determina os serviços e reembolsos atribuídos, os horários de trabalho e a necessidade de formação pós-graduada. A sua remuneração provém de pagamentos per capita e taxas de serviços prestados.

Os processos clínicos encontram-se informatizados e a prescrição eletrónica está implementada há mais de cinco anos. Na agenda diária de trabalho do médico existe, pelo menos, uma hora dedicada a consultas via telefóne ou correio eletrónico, o que proporciona uma maior facilidade de contacto entre o utente e o seu médico de família. O horário de atendimento é das 8h às 16h e pelo menos uma hora semanal depois das 16h (que na Dinamarca corresponde ao horário pós-laboral).

Todos os cidadãos são cobertos pelo serviço nacional de saúde. Estes têm duas possibilidades de acesso aos serviços de saúde. A maior parte (99%) está afiliada a uma unidade de saúde, tem o seu médico de família atribuído e é referenciada para outras especialidades quando necessário. Neste caso, as consultas são gratuitas, exceto no caso de consultas do viajante e emissão de alguns tipos de atestados médicos. Caso não estejam satisfeitos, estes utentes podem requerer mudança de médico de família, mediante pagamento de uma taxa.

Por outro lado, uma minoria (1%) opta por realizar pagamento das consultas, podendo escolher qualquer médico de família ou outro especialista sem necessidade de referenciação.

Como futura Médica de Família, foi uma experiência muito gratificante. Os cuidados de saúde primários dinamarqueses são um exemplo de bom funcionamento e acesso. Mas, a realidade portuguesa que transmiti para os colegas, também foi reconhecida por eles como excelente. Em Portugal, o Médico de Família tem uma actividade mais abrangente, por exemplo, faz a vigilância de grávidas e crianças de todas as idades, o que não se verifica na Dinamarca.

Ana Teresa Fernandes
Interna de MGF na USF de Ronfe