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A ‘Ora Maritima’ no pensamento de Sarmento
Quinta-feira, Março 29, 2018

Um trecho da costa ibérica cartografado no comentário de Martins Sarmento à Ora Maritima, na edição de 1896. Biblioteca da SMS.

Usualmente traduzido em português como “Orla Marítima”, o poema Ora Maritima foi escrito no século IV (depois de Cristo) por Rúfio Festo Avieno, um romano da antiga região da Etrúria, cuja identificação apresenta alguns problemas, por não se saber bem onde nasceu, e por integrar uma distinta família da aristocracia imperial romana, com a qual naturalmente partilhava o praenomen e o nomen (Rvfvs Festvs). Este poema épico, do qual não se conhece a totalidade do texto original, descreve a costa marítima da Europa Ocidental.

Até que ponto podemos falar de descrição “científica” da geografia e dos povos da Europa Ocidental, ou se, pelo contrário, podemos apenas falar de uma obra de ficção, é um assunto que deu azo a amplas discussões por parte de vários estudiosos, que procuraram, sobretudo os apologistas da primeira ideia, “descodificar” um texto que é, por vezes, considerado uma cifra, vedado àqueles que não poderiam atingir o conhecimento da navegação ao longo da costa atlântica. Além disto, apesar de escrito no quarto século da nossa era, a Ora Maritima pode ter sido uma obra de História, na qual Avieno refere, em pontos diferentes, o facto de estar a citar uma obra mais antiga e, por isso, utiliza termos geográficos que já não se usavam no seu tempo, como Oestreminis para (possivelmente) o atual território português, ou Albion para (possivelmente também) a Grã-Bretanha. Mesmo a filiação mais antiga do texto é também relativa, um périplo fenício para uns, massaliota (de influência grega), para outros…

Este e outros aspetos despertaram a maior curiosidade e interesse do vimaranense Francisco Martins Sarmento, ao ponto de publicar duas obras distintas com a sua leitura da obra de Avieno, que considera uma fonte de informação científica absolutamente fenomenal. Uma primeira edição, de 1880, estudava o poema de Avieno na parte respeitante à Galiza e a Portugal, como se lê no frontispício da obra. Mas na segunda edição, datada de 1896, com o dobro do tamanho, Sarmento reformula toda a sua leitura, e estuda agora o poema no que respeita a todas as costas ocidentais da Europa…

Um exemplar da primeira edição deste estudo de Sarmento, com anotações manuscritas de um possuidor do livro, foi recentemente oferecida por Francisco Brito à Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento. Sobre esta obra falaremos no próximo dia 21 de Abril, na Sociedade, a propósito da comemoração do Dia Internacional dos Monumentos e do Dia Mundial do Livro.