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Evite que a morte os separe

Ana Margarida Menezes
Opinião \ sexta-feira, dezembro 09, 2022
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A definição de violência construída pela OMS em 2002 é hoje a referência nesta área. É encarnada como uma grave violação dos direitos humanos, com custos elevados e grande impacto na saúde das pessoas

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define violência como “uso intencional da força física ou do poder, real ou sob a forma de ameaça, contra si próprio, contra outra pessoa ou contra um grupo ou uma comunidade, que resulte, ou tenha possibilidade de resultar, em lesão, morte, dano psicológico, compromisso do desenvolvimento ou privação”. Esta definição engloba vários tipos de violência que pode ser dirigida ao próprio (ex: suicídio), a outras pessoas quer sejam familiares (ex: violência doméstica ou violência contra idosos) ou outras pessoas da comunidade (ex: violência no local de trabalho, violência na escola) ou violência coletiva (ex: terrorismo). A violência pode ser física, psicológica, sexual ou por negligência/ privação.

A violência afeta significativamente a vida das vítimas, que tanto são mulheres ou homens, mais novos ou mais velhos. A vítima está mais frágil em termos de saúde física e mental (baixa auto-estima, sensação de desespero, solidão), tem perda de produtividade, dificuldade em arranjar emprego e existem também consequências para os filhos (insucesso escolar).

Segundo o Observatório de Mulheres Assassinadas foram registados 28 homicídios em mulheres vítimas de violência no ano de 2022 até 15 de novembro. Dados de 2021 da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima revelam que a maioria dos pedidos de ajuda são feitos por vítimas de violência doméstica, a maioria das vítimas são mulheres, mas o número de homens tem vindo a aumentar.

Imagem: Sidney Sims

A violência doméstica é um crime público, que engloba todos os atos de violência física, psicológica ou sexual entre pessoas (crianças ou adultos) que vivem na mesma casa e inclui também os ex-cônjuges ou (ex) namorados que não partilham a mesma casa.

O comportamento violento pode ser explicado pelo modelo do ciclo da violência que é constituído por 3 fases. Na primeira fase há uma tensão crescente entre o agressor e a vítima, que depois passa para a fase de explosão/ agressão. Esta segunda fase é caracterizada pelo agravamento das agressões e pelo poder do agressor sob a vítima. A terceira fase é a fase calma ou de lua-de-mel em que há arrependimento e sedução da vítima. Ao longo do tempo este ciclo perpetua-se, podendo terminar em morte. Estas mortes podem ser prevenidas, se todos defendermos o direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal[1].

Este tema é delicado, muito frequente e pouco falado. Esta violação dos direitos humanos não pode ser vivida apenas no seio de casa, na intimidade.

Todas as vidas contam.

[1] Artigo 3 - Declaração Universal dos Direitos Humanos

Bibliografia: DGS. Violência Interpessoal- Abordagem, Diagnóstico e Intervenção nos Serviços de Saúde. Dezembro de 2014.