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O que era estável dissolve-se
Quinta-feira, Abril 9, 2020

Há um mês não escrevi no espaço que ocupo regularmente neste jornal. O novo coronavírus começara a intrometer-se no nosso dia-a-dia. Os primeiros impactos sociais da epidemia no nosso país sentiram-se precisamente na área que acompanho em termos profissionais, a Educação. Não tinha, por isso, tempo para escrever essa crónica, absorvido que estava por uma avalanche de trabalho.

Foi esse o primeiro motivo para ter comunicado à direcção do Reflexo que não seria possível entregar a crónica de Março. Nesses dias, porém, fiz o exercício que sempre faço na semana em que me toca aqui escrever: pesquisar sobre o que tem sido o dia-a-dia do concelho, reflectir sobre os temas possíveis, escolher e abordar aquilo que mais me interessa. Fui dar a um beco sem saída.

A única conclusão a que fui capaz de chegar nessa altura foi a de que pouco interessaria escrever, por mais importante que pudesse parecer o tema. O que importam as considerações que se possam fazer sobre os assuntos costumeiros num momento em que na cabeça de todos está apenas este vírus e os seus impactos?

Esta semana não fiz o exercício habitual. Era desde logo evidente que não havia qualquer assunto local que justificasse ser abordado num momento destes. Não vale a pena valorar alguns episódios politiqueiros a roçar ao ridículo sobre os quais fui lendo. Não me parece ajustado reflectir ainda sobre a falta de comparência da imprensa local neste momento. Não é ainda sequer o tempo de avaliar a resposta municipal à crise. Perante um desafio para o qual não existe guião de abordagem, houve, por certo, coisas bem feitas e outras erradas. Dificilmente seria de outra forma.

À partida para este texto não estava longe da conclusão a que tinha chegado há um mês. Sinto-o, no entanto, de forma mais pesada. Agora, não é apenas a emergência sanitária que preocupa, mesmo que ninguém possa ainda antecipar quando esta estará ultrapassada. Há outros motivos de angústia por estes dias. A começar pela incerteza sobre quanto tempo durará este estado de excepção em que nos encontramos.

Não é só o confinamento a que a maioria de nós está hoje obrigado e que não tem prazo de validade. Mesmo no momento em que as medidas restritivas forem levantadas, quando voltaremos a algum tipo de normalidade? Quando sentiremos outra vez à-vontade para apertar a mão a um desconhecido ou para ir a um espaço onde se reúna muita gente? No horizonte, não muito longínquo, está também a crise económica que se seguirá e os seus impactos sociais. Alguns estão já a senti-la.

E é impossível não reflectir sobre a forma como esta experiência nos mudará individualmente e também como sociedade. Não tenho respostas. Não creio que ninguém as pode ter. A única frase que me ecoa na cabeça por estes dias é bem mais velha do que esta crise: “Tudo o que era estável dissolve-se”. Mas, ao contrário do que propunham então Marx e Engels, desta vez ninguém antecipa o que ocupará esse lugar.