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O que custa caro
Quinta-feira, Dezembro 7, 2017

Leio um extraordinário título na imprensa local: “A Cultura custa caro aos munícipes”. Há, porém, pelo menos uma coisa que custa ainda mais caro do que a Cultura: a falta dela. Quando essa chega aos jornais então é mesmo uma catástrofe.

Não é, porém, apenas algum jornalismo que enferma desta constante desvalorização da Cultura. No tempo em que eu era crente, cheguei a acreditar que, cinco anos volvidos desde que Guimarães foi Capital Europeia da Cultura (CEC), este tipo de argumentação já não seria replicada pela imprensa ou pelas elites do concelho. Hoje percebo que este tipo de mensagem se mantém viva e está para durar.

Não que a CEC não tenha mudado algumas mentes. Há hoje uma nova geração de pensadores, programadores, criadores e consumidores de Cultura em Guimarães que não se revêm neste tipo de argumento e até o combatem, como tento fazer com este texto.

Todavia, não fica fácil ser resistente quando se olha para os exemplos que vêm dos lugares onde está o poder de facto. Durante a campanha, o candidato da coligação Juntos por Guimarães, usou do mesmo tipo de argumentos que encontro no texto que suscitou esta reflexão, quando contrapôs ao investimento feito em Cultura as fracas “receitas de bilheteira” dos equipamentos culturais do concelho.

Há quem ainda não perceba que o investimento em Cultura tem o mesmo perfil do investimento em Educação, por exemplo. Passa pela cabeça de alguém ir perguntar às escolas quais são as suas receitas na cantina, nos bares ou no aluguer do pavilhão desportivo?

Durante os últimos dois anos, fui alertando em vários textos neste mesmo espaço, para a desvalorização que a Cultura estava a sofrer no discurso político da maioria no poder na Câmara. Se houvesse dúvidas sobre a justeza das minhas críticas, elas ficaram dissipadas quando o presidente de Câmara abdicou de ter uma vereação própria para a Cultura. Quando quem tem o poder (de facto e simbólico) não defende o investimento em Cultura, não se pode estranhar que os ataques à justeza dessa opção apareçam.

Termino esta reflexão com um exemplo que me parece elucidativo do peso que (não) tem a Cultura nas prioridades do município e das elites locais. O executivo municipal de Guimarães prepara-se para aprovar as verbas a atribuir às associações no âmbito do regulamento municipal de apoio a entidades culturais, artísticas, recreativas e humanitárias (RMECARH). O regulamento tornou-se uma forma séria, transparente e vital de apoio à actividade cultural no concelho e a sua activação é uma das decisões mais acertadas da Câmara nos últimos quatro anos.

Na mesma reunião, os vereadores pronunciam-se sobre um subsídio a atribuir à Associação Comercial e Industrial de Guimarães (ACIG) para financiar a sua programação de Natal – que, pelo que se vai vendo na rua, manterá a pobreza confrangedora que é habitual.

Qual é o valor do subsídio à ACIG? 39 mil euros. Os apoios aprovados no âmbito do RMECARH para o Círculo de Arte e Recreio, Convívio, Cineclube de Guimarães, Muralha e Santa Casa da Misericórdia – ou seja, quase todas as instituições culturais mais relevantes do concelho – todos somados perfazem 37 mil euros. Dá para ter uma ideia das prioridades.

A Cultura parece custar caro a alguns, mas um subsídio a uma actividade privada, que tem como único objectivo alavancar as receitas de negócios de um pequeno grupo de empresários do centro da cidade, às vezes até custa mais. E ninguém o questiona. Curiosamente, nas mesmas páginas em que se pôs em causa o investimento público em Cultura, promoveu-se acriticamente a proposta dos comerciantes, sem o mesmo cuidado em pesar os seus custos para os munícipes. Com critério, certamente.