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O misterioso edifício romano de Oleiros
Sexta-feira, Dezembro 16, 2016

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Planta do edifício escavado em Oleiros em 1882 (desenho de Martins Sarmento. Arquivo da SMS)

A 2 de Dezembro de 1881, Francisco Martins Sarmento, acompanhado do cirurgião Custódio da Costa, que por vezes o seguia nas suas explorações arqueológicas, e do proprietário Manuel Pereira Marques, observam vestígios do que teria sido um “forno”, detectado pouco antes num terreno de Marques, no lugar do Paço, da Freguesia de S. Vicente de Oleiros. Realizada uma primeira escavação nesse dia, revelando restos de um edifício de dimensões consideráveis, as explorações seriam retomadas em Março de 1882.

O que então se descobriu impressionou Sarmento, pese embora a sua natural inclinação para apreciar vestígios mais antigos, como castros e monumentos megalíticos, o que talvez tenha sido uma das razões para não se dar seguimento às escavações neste local. É o próprio arqueólogo que não hesita em classificar a construção desenterrada como sendo parte de um hipocausto de época romana.

“Segundo parece pela sondagem, o edifício tinha proporções menos más. Por outros campos próximos é vulgar o aparecimento de telha. (…) Todo o campo parece ter sido a área de construcção. A qualidade do tijolo desenterrado (…) é enorme. (…) Não prolonguei a escavação por entender que o que descobrisse não adiantaria muito mais e para não ser prejudicial ao snr. M. José Marques, do Paço, que com tão boa vontade se prestou à escavação.”

F. Martins Sarmento, Materiaes para a Archeologia do Concelho de Guimarães, RG, 1901, pp. 23-25.

A área escavada revelou um trecho de edifício, construído com pedra e tijolo, de pouco mais de dez metros de comprimento e cerca de quatro metros de largura, que conservava paredes de um metro e meio de altura. Ficaram visíveis três compartimentos, todos rematados em abside, cujos pavimentos suportavam ainda pilastras de tijolo de cerca de oitenta centímetros de altura. Estas pilastras teriam suportado o nível de circulação do edifício, que era assim aquecido por este sistema de hipocausto. Além disso, relata Sarmento, abundavam as tegulae, os imbrices, os tijolos com marca de patas de animais, os silhares de granito almofadados (comparados aos da ponte romana de Campelos) e mesmo fragmentos de “barro sâmio”, ou seja a célebre terra sigillata.

Trata-se muito provavelmente de um edifício habitacional que integraria uma villa, esses curiosos aglomerados rurais, de dimensões variáveis, que sabemos terem pontilhado a paisagem do Entre-Douro-e-Minho no período romano, mas que tão mal conhecemos, porque poucos foram devidamente estudados (a villa romana de Sendim, em Felgueiras, continua a ser dos poucos sítios deste género que se encontra visitável). Seria este exemplo da possível villa de Oleiros um excelente caso de estudo, posto que o seu abastado proprietário dispunha de um balneário privado. Os vestígios localizam-se num vale relativamente encaixado do rio Pele, vigiado pelo impressivo monte de S. Miguel-o-Anjo, onde existiu um povoado fortificado castrejo, também pouco conhecido.

Tão misteriosamente como foi descoberto, este edifício romano de Oleiros terá sido novamente enterrado, e não se vislumbram hoje vestígios no local, além da confirmada abundância de material cerâmico romano à superfície. Este sítio arqueológico atravessou portanto todo o século XX, sem motivar a curiosidade de outros arqueólogos, além de uma referência de Jorge de Alarcão, nos seus estudos sobre o Portugal Romano. Valha-nos a reduzida construção urbana desta zona do Concelho, que bem pode ter poupado, para futuro, interessantes e raros vestígios.

Arqueólogo da Sociedade Martins Sarmento