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“O Herói”
Quinta-feira, Fevereiro 18, 2021

Horácios e Curiácios é um episódio famoso na história de Roma, narrado por Tito Olívio, e que ao longo dos tempos tem merecido a atenção de variados autores – Lope de Veja, Corneille, B. Brecht, Heiner Muller, e Jaques-Luis David autor da pintura exposta no Louvre com o título “O juramento dos Horácios” ano de 1784.

O tema anda à volta da rivalidade existente entre a cidade de Roma e a cidade de Alba que se batiam pela dominação. Como estas duas cidades estavam na eminencia de serem atacadas pelos Etruscos, seu inimigo comum, foram escolhidos três elementos representativos de cada uma das cidades que lutariam entre si, em duelo, para encontrar o vencedor, resguardando os respectivos exércitos para o combate principal.

Sobre o tema apenas conheço os textos de Brecht e o de Heiner Muller, diferentes na abordagem da história, mas ambos interessantes na sua recreação. Brecht, no “Os Horácios e os Curiácios” explora a forma astuta de um dos combatentes que, analisando as armas em presença consegue ultrapassar e tirar partido das suas insuficiências e sair vencedor.

No texto de Heiner Muller, com algumas diferenças da versão original histórica e também da de Brecht, os contendores são apenas dois: um Horácio e um Curiácio. Mantem-se a particularidade de na escolha do sorteio dos lutadores o Horácio ser irmão da noiva do Curiácio. Iniciado o combate o Horácio levou a melhor e ficou em posição de desferir o golpe fatal. O Curiácio sabendo que não tinha qualquer hipótese de alterar o seu destino e sabendo que o combate já estava perdido, pediu ao Horácio que lhe poupasse a vida pois estava noivo da sua irmã. O Horácio, sem contemplações, respondeu-lhe que a sua noiva é Roma e matou-o. O vencedor foi aclamado pelos romanos e pelos albanos mas ao entrar na cidade encontra a sua irmã, que estava noiva do Curiácio, a chorar e a amaldiçoar Roma, e por isso o Horácio mata-a. Os festejos terminam de imediato, tiram-lhe a espada e fazem o julgamento do Horácio, divididos entre considerá-lo um herói ou um assassino. O que carregava o louro disse: o seu mérito apaga a sua culpa. O que carregava o machado disse: a sua culpa apaga o seu mérito. Se o assassino for executado será executado o vencedor e se o vencedor for honrado será honrado o assassino. O povo concluiu a uma só voz: Horácio é o vencedor e o assassino. Há muitos homens num só homem, um deles venceu por Roma o duelo, o outro matou a sua irmã sem necessidade. Ao vencedor o louro, ao assassino o machado. A cerimónia terminou com a coroação do vencedor e, de seguida, a sua execução pelo machado sendo o corpo lançado aos cães.

Este texto vem a propósito de algum ruído provocado pela morte recente de um denominado herói da guerra colonial. Para uns, este homem foi um herói, para outros não passa de um criminoso de guerra. Pode um herói ser criminoso? Pode. Há muitos homens num só. Só que neste caso, e ao contrário do texto acima descrito, a sentença ficou-se apenas pela metade, ignorando as vítimas dos troféus guardados em frascos de formol.

Torcato Ribeiro, Fevereiro de 2021