O 25 de Abril do Eduardo Fernandes
Segunda-feira, Abril 29, 2019

Bruno Fernandes partilha, no seu espaço habitual, a intervenção  de Eduardo Fernandes produzida no dia 25 de Abril, na Assembleia Municipal em nome do PSD.

O Eduardo Fernandes, líder da JSD Vimaranense, representou o PSD na sessão da Assembleia Municipal evocativa do 25 de Abril. Um discurso que pela sua qualidade, oportunidade e realismo me leva a pedir uma excepção, na dimensão dos artigos que aqui publico, para o partilhar na íntegra.

“Estamos aqui hoje reunidos, para prestar homenagem e celebrar os 45 anos passados desde o dia 25 de abril de 1974.

Confesso que fiquei surpreendido quando o PSD me convidou para fazer este discurso. Porque, embora tenha estudado e ouvido muito sobre a revolução dos cravos, eu e a minha geração, não temos memórias vividas desse tempo, nascemos e sempre vivemos em liberdade.

E por isso mesmo, sempre demos a liberdade como adquirida e não pensamos muito sobre ela, nem sobre a história e o caminho que teve que se fazer para que nós possamos viver desta maneira.

A minha geração é uma geração já muito distante de 1974.  Estão aqui nesta sala (sem prejuízo de ninguém de como é óbvio) pessoas que embora não tenham vivido a ditadura nasceram naquela altura e há outras pessoas, como a geração dos meus avós, que viveram aqueles tempos e que nos contam histórias fascinantes sobre como foi viver sem liberdade e como é que se construiu o caminho para que pudéssemos voltar a ser livres.

Mas, hoje assumo aqui o papel de falar pela minha geração, a Geração Z, também apelidada de geração Facebook, Instagram ou Youtube.

Temos mais formação e sobretudo um acesso quase ilimitado à informação à escala global que nos tornam potencialmente mais aptos para viver neste mundo novo.

Mas nesta vertigem do tempo e da informação global, há imensas coisas fomos perdendo.

Principalmente no que diz respeito à história.

Nomes como António Salazar e Marcelo Caetano ou Vasco Lourenço, Otelo Saraiva de Carvalho e Salgueiro Maia, dizem-nos muito pouco ou quase nada.

Desconhecer os ditadores e os libertadores, a história de cada um deles, será com certeza um dos factores que ajuda a perceber o desinteresse dos jovens pela política actual. Os jovens não vão votar porque o voto não lhes diz nada, fomos perdendo parte da história.

Esta é uma das principais causas que quero falar aqui hoje.

A política tem de ser dos e para os jovens!

Só com jovens é que o nosso sistema democrático vai conseguir subsistir.

Com uma análise fria à evolução da taxa de abstenção, por exemplo, nas eleições para o Parlamento Europeu, que são as próximas que temos, esta sempre foi muito elevada, pensando eu que a existência de ideologias contra a participação de Portugal na União Europeia não ajuda no consenso que deveria existir, mas isto não é desculpa.

A abstenção em 1987 (data da primeira eleição para o parlamento europeu e embora tenha coincidido com a data das eleições legislativas) foi de 25% e em 2014 atingiu o tecto máximo e chegou aos 66%.

E reparem que em 1987 tínhamos perto de 8 milhões de eleitores tendo votado quase 6 milhões e em 2014 tínhamos perto de 10 milhões de eleitores e votaram pouco mais de 3 milhões. E lembro que muitos dos eleitores que votaram em 2014, já tinham votado em 1987.

Nas eleições para a Assembleia da República, também somos fustigados pela abstenção. Pese embora não seja tão alta como nas eleições europeias, é alta de mais para um órgão que se quer muito mais próximo das pessoas do que o Parlamento Europeu.

Quando vamos para a rua, como iremos, com certeza durante este ano, sentimos um distanciamento muito grande das pessoas em relação à política e aos políticos. E ouvimos muita coisa. Ouvimos que os políticos são todos iguais, ouvimos que os partidos são todos iguais, que muitos dos políticos já estão em funções há demasiado tempo, ouvimos isto e muito mais. Efectivamente a política e a classe política atingiram um grau de descredibilização muito grande. É difícil que os mais jovens saiam de casa para irem votar num político ou num partido político.

Mas nada está perdido. Ainda há esperança, e muitas das vezes para encontrarmos esta esperança basta olhar para trás, para os momentos mais complicados da nossa história e perceber como é que os conseguimos ultrapassar.

O caminho que nos levou ao 25 de Abril de 74 foi feito, maioritariamente, por jovens.

Jovens que viviam inconformados com o Portugal que tinham. Jovens que queriam um Portugal diferente daquele em que viviam.

Jovens com ambições de construir um Portugal democrático e aberto ao mundo.

Depois de tanta luta e persistência, finalmente, com a decisiva intervenção dos Capitães de Abril também eles muito jovens, Portugal voltava a viver em liberdade.

E este é o momento de fazermos de novo história.

Este é o momento de agarrarmos os nossos jovens, de lhes relembrarmos a verdadeira razão pela qual actualmente tem tantas facilidades no que diz respeito a estudar, à mobilidade nacional e internacional e até no que diz respeito ao acesso à cultura.

De lhes relembrarmos que Portugal viveu a maior ditadura militar do século 20.

Uma ditadura que durou mais tempo que a actual democracia.

De lhes relembrarmos que se actualmente podemos falar e escrever livremente sobre algum membro do governo foi porque alguém não se conformou e lutou por essa liberdade.

De lhes relembrarmos, acima de tudo, que o voto não é apenas um direito. É um instrumento de mudança.

Se não é este o Portugal, a União Europeia, a Câmara Municipal ou até a Junta de Freguesia que desejamos.

Se estamos descontentes com a falta de transparência nos órgãos políticos.

Se acreditamos e defendemos que as pessoas que ocupam cargos políticos devem ser escolhidas com base no seu mérito pessoal e não nas ligações que cada um tem.

Se acreditamos que a corrupção está a apodrecer o nosso sistema político e que é preciso uma mudança.

Então o voto é a nossa arma!

Minhas senhoras, meus senhores,

Não podemos de maneira nenhuma, banalizar e descredibilizar algo que tanto custou a tantos. A luta de várias gerações que nos deu o Portugal em que actualmente vivemos e do qual todos gostamos.

E aqui, nesta sessão evocativa do 25 de Abril, faço um apelo, abram espaços para os jovens na política.

O sistema político precisa de sangue novo, de novas ideias, de novos projectos e, acima de tudo, precisa de ter representadas aquelas que são as gerações mais abstencionistas de sempre e que por sua vez representam o futuro do nosso país.

A história não deve servir apenas para nos relembrarmos daquilo que já fizemos. Deve servir também para que a possamos aplicar de novo.

Como nos disse George Santayana “Quem não se lembra do passado está condenado a repeti-lo”. Por isso vos digo, e para que nunca nos esqueçamos do sabor da Liberdade, agarrem os nossos jovens!”