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“No mundo há palavras mas poucos ecos”
Quarta-feira, Novembro 18, 2020

O eco vive e revive, prolonga-se por um período indeterminado, conforme o local onde se lhe lança o desafio. Segundo Goethe “No mundo há muitas palavras mas poucos ecos”.

Há, porém, um eco que não me canso de fazer reviver e que nunca esmorecerá “Uma vez professora sempre professora”. E dou comigo a analisar os textos que leio (que já não são de alunos), a criticar as construções frásicas defeituosas, os erros ortográficos. E estes últimos aumentaram exponencialmente, pois, desde 2012, alunos e professores foram “obrigados” a adotar o Novo Acordo Ortográfico e, pelos vistos, Portugal foi o único que o adotou. Como sempre, somos “idiotas” q.b. Os nossos brandos costumes levaram-nos a dar uma machadada na língua-mãe que era a nossa. Para quê? Como se diz coloquialmente “foi pior a emenda que o soneto”. Agora cada qual escreve à sua maneira. E como não procuram saber como a palavra se escreve, ou se aplica o acordo ou não e há regras… há professores de todos os anos de escolaridade que não aplicam corretamente o acordo e, pior ainda, há universidades que não o adotaram (autêntica aberração – estarão estas universidades nas nuvens e não no país?)… para já não falar dos portugueses em geral, bem como de alguma imprensa escrita que se recusa a utilizá-lo (?). É uma confusão e ninguém se entende. E isto ainda veio complicar mais não só o ensino da língua como a motivação para a sua aprendizagem. É cada vez mais difícil motivar os jovens para que criem uma empatia com as palavras escritas e/ou lidas. Esta é uma queixa recorrente dos professores que está esgotada, estafada, completamente gasta.

Não é com ela que vou perder o meu e o vosso tempo. É precisamente com os outros, com aqueles que se deixam motivar, que descobrem o gozo da leitura e da escrita, que brincam com as ideias e as palavras como se divertem com os jogos do computador, do telemóvel… Que possuirão estes que faltará provavelmente àqueles? Que passe de mágica foi feito, de modo inconsciente, que atingiu uns e não alcançou os outros? Torna-se difícil com a Informática e a Eletrónica a comandarem um mundo cada vez mais robotizado encontrar-se um jovem que diga que o seu passatempo favorito é “ler” ou “escrever”. É fácil culpabilizar o sistema (educativo, social, político)… quando o primeiro problema se situa no terreno dos educadores: pais, professores e comunidade.

Como diz Daniel Pennac no seu “Como um Romance”, nós, adultos, de “contadores de histórias” passamos muito rapidamente a “contabilistas” de histórias. Sociedade economicista por excelência, até as histórias que as crianças e os jovens leem têm de ser contabilizadas para vermos quanto pode rentabilizar, por certo! E isso é uma machadada “mortal” que se dá à leitura e, principalmente, ao “prazer de ler”. Quem pode sentir prazer em ler quando vai ter de resumir, explicar, dividir em partes, interpretar e, quantas vezes, ser obrigado a seguir a visão adulta, desinteressante, portadora de toda a verdade?

A interpretação polissémica do texto é coartada e ao aluno é impingida a opinião dos críticos literários ou dos teorizadores da literatura que estabelecem os parâmetros que são válidos ou inválidos para se dizer se um texto é literário, paraliterário ou não é coisíssima nenhuma. E há autores com bestsellers a quem não é reconhecido mérito (não sei porquê – dor de cotovelo?) e atribui-se o Prémio Nobel da Literatura a quem não vale nada mas não vou nomear. E não me refiro a Saramago que esse teve todo o mérito para receber o prémio, apesar de algumas obras “menos boas”. Aliás, devo ser das poucas pessoas que leu quase toda a sua obra. Faltar-me-ão talvez uns dois ou três livros. A minha opinião vale o que vale, mas não gosto que tapem o sol com a peneira e me atirem areia para os olhos… Ainda sei ver o que presta e o que é lixo, reconheçam-me essa capacidade. E há muito lixo por aí publicado e nem todo é “edição de autor”.

Há tempos, fazia uma limpeza à gaveta da papelada (onde guardo bloquinhos, cadernos, papéis, apontamentos com breves notas para histórias ou crónicas inacabadas ou meras ideias que vão ficando esquecidas) quando uma folhinha se soltou e me veio parar à mão. “Mamã, vou ler. O meu espírito solta-se quando leio”. Estas palavras proferidas pelo meu filho mais novo, então com 9 anos (hoje com 27), marcaram o ritmo daquele serão. Desde sempre amigo das palavras, gosta de escrever e tem um vocabulário riquíssimo. E não é uma exceção, porque tive alunos que se destacaram e destacam na escrita. Têm é de ser treinados. Só escreve quem escrever… disso não tenham dúvidas. Só andou de bicicleta ou de patins quem deu muito trambolhão. Ninguém nasce ensinado.

E permitam-me um desabafo. Atendendo a alguns livros publicados que tenho folheado na Fnac e a muitos que fazem parte do Plano Nacional de Leitura (como entraram?), não me referindo já aos de edição de autor que abundam – com e sem valor, já não sei como se escreve e o que é escrever. À beira desses autores “modernos” que dizem que a criação artística nada tem a ver com a literária (isto foi-me dito!), bem, os jovens que escreviam textos incompreensíveis, sem pontuação e com uma construção frásica defeituosa eram artistas “incompreendidos” e eu, a professora, uma mera ditadora de regras e de normas, completamente formatada (pela gramática e pela análise literária) e desinteressante e ultrapassada.

Dá que pensar, não?