Nenhuma ideia de cidade (II)
Quinta-feira, Junho 21, 2018

No meu último artigo fiz uma crítica ao que considero ser uma opção profundamente errada do município para a mudança de instalações de um dos tribunais que serve o concelho. No mesmo texto, fazia um comentário lateral sobre a proximidade demonstrada entre os responsáveis da maioria na câmara e o maior grupo de média local. Onde é que os responsáveis políticos decidiram publicar a sua resposta às minhas críticas? No jornal do tal grupo de média. Nem preciso de ter trabalho a provar que tenho razão!

Vamos, todavia, ao que interessa. E o que interessa é que o vereador do Urbanismo – o mesmo que, se vivêssemos tempos saudáveis em termos de cidadania e participação democrática, nunca teria chegado ao cargo, depois de ter recebido 19.750 euros+IVA para prestar um serviço à autarquia um mês antes de ter surgido nas listas eleitorais – decidiu dizer que deslocalização do tribunal para as franjas do Parque da Cidade corresponder a uma “visão para a cidade”.

De um mês para o outro, aquilo que o próprio presidente da câmara anuncia na notícia inicial sobre esta matéria como uma solução conjuntural, para responder a uma dificuldade negocial, passou a ser apresentado como uma opção estratégica. Isto pode funcionar em alguns meios, mas lamento ter que sublinhar que é preciso mais do que uma manobra propagandística gasta para enganar cidadãos atentos.

Na notícia a que faço alusão, o vereador do Urbanismo tenta também confundir conceitos. Fala sobre o centro histórico quando o que se estava a discutir é o centro da cidade – vão mais de 500 metros entre o colégio que a câmara queria transformar em tribunal e a zona classificada pela Unesco. E isto não é um pormenor.

E escrevo “tenta confundir” porque um técnico com a experiência do vereador não o faria por erro ou desconhecimento. É deliberado. É a mesma técnica propagandística gasta de que falo atrás. Há cidadãos mais fáceis de enganar do que outros. A mim é um bocado mais chato dar a volta com argumentos frágeis.

O vereador detém-se também em considerações acerca da “pressão” sobre o centro histórico que justificará a tal opção conjuntural transformada por artes mágica em estratégica. Mais uma vez agradeço por me facilitar o trabalho de provar um ponto. Porque estamos precisamente na temporada em que a pressão sobre o centro histórico é mais brutal e intensa. E a responsabilidade é toda da autarquia.

No fim-de-semana passado, uma festa do pôr-do-sol ocupou as duas principais praças do centro histórico: foi autorizada e apoiada pelo município. Neste fim-de-semana, há uma feira que transforma o centro histórico em parque temático: é organizada pelo município. E até ao final do Verão vamos ter muitos outros exemplos – até a apresentação do Vitória! Tudo autorizado – e por vezes até organizado – pela própria câmara. Se o vereador quer ser sério na discussão acerca da “pressão” sobre o centro, é bom que comece por perceber as responsabilidades do organismo de que faz parte.

Contudo, a questão mais importante que me é suscitada pela resposta do vereador do Urbanismo é de natureza política. As eleições locais foram há menos de um ano e no programa que as venceu não havia nenhuma referência a esta tal “visão para a cidade”.

A maioria costuma usar o argumento de que tem legitimidade para tomar algumas decisões discutidas porque estas estavam no seu programa. Esta não estava. E se há uma nova “visão para a cidade” então exige-se que seja enunciada e discutida com os vimaranenses. Sem isso, por maior que seja a maioria, não tem mandato para tanto.