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Não são tempos para estarmos distantes, são tempos para nos unirmos
Quinta-feira, Janeiro 21, 2021

Atravessamos aqueles que são os dias mais complicados nesta batalha contra a pandemia. Os números são devastadores, as projeções assustadoras. Mas, e além do maldito vírus, temos agora que lutar contra o desânimo, a frustração e o cansaço que, nos últimos dias, se tem traduzido na fragmentação da sociedade, patente num discurso de ódio e acusação para com aqueles que, por um motivo ou outro, não cumprem o confinamento.

De repente, as redes sociais estão cheias de especialistas, epidemiologistas e moralistas, com causas e culpados devidamente identificados. A culpa é do Natal, a culpa é das festas, a culpa é da malta que não fica em casa, a culpa é dos portugueses que eram bestiais mas agora são bestas.

Se fizerem uma breve pesquisa na internet, rapidamente encontrarão projeções feitas no Verão e que davam, para esta altura do ano, esta grandeza de casos. Não estamos a viver uma inevitabilidade, estamos a viver um cenário para o qual os cientistas alertaram.

O conhecimento produzido pelos cientistas não é feito em cima do joelho, não é uma opinião de mesa de café, é um conhecimento sustentado em factos e que tem em consideração diversos fatores, entre eles o estado mental das pessoas em situações de catástrofe.

E nestes casos, a ciência sabe que, após uma fase de optimismo onde a comunidade se mobiliza para a entreajuda, vem a fase de desapontamento, onde as pessoas percebem que nem tudo vai ficar bem, onde a desilusão, o cansaço e o sentimento de abandono tomam lugar.

Era, por isso, expectável que no inverno e ao cumprir quase 1 ano de pandemia, o comportamento das pessoas se alterasse, dando lugar a um maior relaxamento, uma maior negligência, a ciência sabia-o e avisou. Ignoramos (ou o poder político ignorou) os avisos da ciência, porque eram alarmantes, porque retravam um cenário que não queríamos e por isso agora, assustados com a realidade que nos bateu à porta viramo-nos uns contra os outros.

O distanciamento social deixou de ser apenas físico e passou a ser um efectivo distanciamento do outro.

Esta pandemia não é uma ameaça apenas à nossa saúde física ou à nossa vida, o que de si já seria grave. Há muito mais em jogo. A economia, a saúde mental, os empregos, o nosso modo de vida, ou mesmo a democracia!

A travessia desta tormenta poderia ser mais fácil com um timoneiro no leme. Infelizmente estamos órfãos de bons líderes. Do poder político podemos apenas esperar maus exemplos e um desnorte que muito contribui para o nosso desânimo. Temos, por isso, enquanto cidadãos, uma responsabilidade maior.

Agora mais do que nunca precisamos de união, de empatia uns com os outros. Ninguém está bem, ninguém está a salvo. Uns mais que outros, é certo, mas estamos todos a braços com o medo, a incerteza e um rol de problemas que não sabemos como poderemos ultrapassar. A única certeza que podemos ter é que ninguém se salva sozinho!