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O monte de Santa Iria, aqui tão perto
Quinta-feira, Janeiro 10, 2019

Um dos alinhamentos de muralha do Castro de Santa Iria, Póvoa de Lanhoso. Fotografia de 2009 (Sociedade Martins Sarmento).

Disfarçadas por entre vários muros de pedra, que circundam bouças recobertas de eucaliptal, as outrora imponentes muralhas do remoto castro conseguem ainda distinguir-se, aqui e ali. Localizado já dentro do limite do Concelho da Póvoa de Lanhoso, o local referido no século XVIII como “Outeiro de Brandião”, mas conhecido localmente como monte de Santa Iria, devido a uma capela com esta invocação existente outrora no cume, preserva vestígios do povoado fortificado que, na Idade do Ferro, complementava o domínio visual sobre o vale do Ave com a Citânia de Briteiros.

Sim, porque a história deste local andará certamente ligada à da grande Citânia, localizada a pouco mais de 1km para sudoeste de Santa Iria. Este aspeto não ficou indiferente a Martins Sarmento, que por ali fez várias caminhadas, tomando notas sobre as muralhas, as gravuras rupestres que foi detetando entre os dois castros, e as omnipresentes mamoas, monumentos megalíticos que Sarmento associava, erradamente, ao povoamento dos castros. Posto que tanto a Citânia de Briteiros como o Castro de Sabroso se localizavam em terrenos baldios, não foi difícil a Sarmento proceder ao aforamento dos terrenos da primeira, e obter autorização para escavar no segundo. Já no caso de Santa Iria, o facto de o castro se encontrar em terrenos privados pode ter sido um obstáculo, supomos, para a prossecução de trabalhos mais sistemáticos, cuja intenção existia na mente do arqueólogo, bem como a aquisição das muralhas, como referiu em 1893.

Foi a fortificação, de pelo menos duas linhas de muralha, implantada num relevo destacado, de formato cónico, que se levanta abruptamente para o vale, a norte e a leste, com um relevo mais suave para oeste,  abrindo para uma pequena rechã, a partir da qual se acedia ao povoado. Além de uma parte das linhas de muralha que se mantém relativamente visível, distinguem-se também algumas gravuras rupestres e os restos da velha capela no cume.

Esteve na base de uma teoria ensaiada por Sarmento, mas hoje muito refutada, segundo a qual a Citânia teria sido edificada por populações de Sabroso e de Santa Iria. Aliás, a comparação entre Santa Iria e Sabroso denota-se em várias reflexões do arqueólogo:

Além de Sabroso e da Citânia, e também a pouco mais de um quilómetro desta, se nos depara uma terceira fortaleza das dimensões de Sabroso, e que, como as outras duas, olha igualmente para o vale do Ave.” (Sarmento, “Acerca das escavações de Sabroso”, 1879, p. 15)

Nunca se realizaram quaisquer escavações arqueológicas neste castro. Se, por um lado, este aspeto nos priva de qualquer dado cronológico, o local, que nunca foi classificado, é uma verdadeira reserva, porque intocado. Aguardam estes velhos vestígios por uma valorização e estudo, que os dignifiquem e que venham a contribuir para o conhecimento da Citânia e de Sabroso.