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Mobilidade: planear o futuro
Sexta-feira, Dezembro 2, 2016

Há muito que a mobilidade é tema recorrente na reflexão sobre a cidade e o território.

Há muito que a mobilidade é também tida como o grande factor perturbador da condição de vida da população e a sua (boa) qualidade, fonte maior de solução para os problemas ambientais e espaciais verificados.

Sendo tema complexo, dificilmente consensual e de acentuada transversalidade (ao nível disciplinar), a pretexto de reflexões que se vão fazendo, numa perspectiva iminentemente técnica, julga-se pertinente perspectivar / acrescentar ponto de vista. Assim:

1. Muito mais do que realidade física (embora de forte impacto sobre esta), mobilidade é condição de deslocamento de pessoas e bens. Como tal, depende directamente do comportamento e atitude da população, sendo este factor incontornável na implementação e sucesso de políticas urbanas de mobilidade assumidas e / ou a assumir;

2. O automóvel dito “individual” é, também ele, um meio de transporte colectivo, maioritariamente, podendo albergar / transportar quatro / cinco pessoas. O uso que é dado a este meio de transporte é que é individualista e pouco rentabilizador da sua capacidade;

3. Na verdade, é convicção de que muito mais do que o automóvel, aquilo que se contesta é o tráfego. Ou seja, o seu uso individual e pouco comunitário que preenche e densifica as ruas, espaço público de todos nós;

4. A construção de vias, por si só, não é factor negativo ou positivo. É uma realidade incontornável para os deslocamentos que deve ser avaliada em função dos objectivos que persegue e dos pressupostos que a suportam;

5. O uso que é dado às vias, nomeadamente aquelas dedicadas, por definição, não encerram qualquer qualificação ou tipificação do respectivouso, não possuindo, por isso, carácter lúdico ou “de trabalho” ou outro qualquer. Como no ponto anterior referido, depende dos objectivos e pressupostos. A “ecovia” projectadareúne condições para ser usada de várias formas e para vários fins. Vai depender da adesão e comportamento dos seus utilizadores;

6. Planear significa perspectivar e antecipar o futuro. Independentemente de tal, há realidades que são previsíveis e, à luz da informação actualmente existente, antecipáveis… mesmos aos planos. De tão consensuais são e evidentes, os planos confirma as mesmas, sendo a respectiva concretização antecipada uma forma avisada de acrescentar valor e enriquecer o plano enquanto “perspectiva e antecipação do futuro”.

Na verdade, a mobilidade é tema complexo e difícil, porque implica sempre pessoas e comportamentos. E como não há “receitas” – que as políticas públicas e planos das últimas décadas comprovam – não há como fazer caminho num processo feito de decisões e tentativas, ajustamentos e correcções, acrescentos e conquistas na certeza de que este mesmo caminho não se faz de empreitada. Aadptando livremente o que canta Adriana Calcanhoto, “faz-se… fazendo-se!”

Arquitecto, Diretor do Departamento de Urbanismo e de Promoção do Desenvolvimentoda Câmara Municipal de Guimarães