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O misterioso “Picoto de Santo Amaro” (Mascotelos)
Quinta-feira, Maio 24, 2018

Gargalo de enócoa em cerâmica comum romana, proveniente do Picoto de Santo Amaro. Museu Martins Sarmento

 

Com um característico formato cónico, visível hoje para quem passa pela A7, mas diluído na paisagem envolvente, de pequenos montes cobertos de eucaliptal, o “picoto” de Santo Amaro, na freguesia de Mascotelos, foi alvo da atenção dos estudiosos vimaranenses Martins Sarmento e o conhecido Abade de Tagilde, que foi pároco em Mascotelos. Sobre ele apontaram antigas narrativas que falavam num “Império mouro de Creixomil”… Sarmento pouco ou nada ali encontrou, desconfiado, como sempre, de espoliações posteriores que tenham destruído vestígios de um passado recuado. O Abade de Tagilde lamentava a ausência de evidências “nem uma moeda, ou inscrição ou coisa que nos guie na investigação daquelas velharias”. Porque “telha romana” e tijolos apareciam, no monte e na envolvente.

Decidido, José Salgado Guimarães, instruído na leitura tipológica de materiais arqueológicos, um avanço sintomático para a época, realiza explorações no local em 1969 e 1970. Estas escavações no picoto de Santo Amaro, que contaram com o apoio da Sociedade Martins Sarmento, são realizadas quase em simultâneo com um triste episódio, talvez dos primeiros do género, mas que se repetiram em vários monumentos arqueológicos por esse país fora nas décadas seguintes: a destruidora ação de um caterpillar, que seria então uma novidade, com o objetivo de fazer uma terraplanagem para construção de uma capela!

As primeiras sondagens de Salgado Guimarães realizam-se no Outono de 1969, mas em Janeiro do ano seguinte, a metade norte do pequeno planalto que configura o topo do picoto, foi destruída, dando lugar a uma terraplanagem, a qual não teria qualquer uso… A ação dos “vândalos modernos”, como lhes chamou Salgado Guimarães, nos relatórios que publica nesse ano, na Revista de Guimarães, destrói uma parte significativa de um património, no preciso momento em que se fazia o seu estudo. As pesquisas de Setembro de 1970 serão então realizadas nas terras provenientes desta terraplanagem, poupando assim, e acautelando pesquisas futuras, a metade sul do pequeno planalto, propriedade de “pessoa culta e avisada”, que não permitiu ali a ação destruidora.

Mas o que terá existido neste local? As pesquisas então realizadas, muito limitadas, não detetaram a existência de estruturas. No entanto, recolheu-se uma considerável quantidade de materiais cerâmicos, pétreos, vidros e moedas, colmatando assim a falha apontada pelo Abade de Tagilde. Doze moedas de bronze, todas dos período romano Alto-Imperial, testemunharão uma ocupação entre os séculos I e V da nossa Era. A variedade do espólio cerâmico, incluindo alguns exemplares de terra sigillata hispânica, uma delas com marca de oleiro, parecem sugerir essa ocupação em época romana. Diz também Salgado Guimarães que o local terá qualquer coisa de pré-romano, talvez um castro, embora se não distingam muralhas. Efetivamente, uma parte considerável das cerâmicas, incluídas pelo empenhado arqueólogo em 1970 num conjunto que denomina “cerâmica grosseira”, são peças da Idade do Ferro.

O Picoto de Santo Amaro, está referenciado na Carta Arqueológica do PDM de Guimarães como sítio arqueológico “em perigo”. O espólio recolhido nas escavações de 1969 e 1970 está guardado no Museu da Sociedade Martins Sarmento.