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Médicos trabalham mais horas mas a capacidade de resposta não agrada aos utentes
Médicos trabalham mais horas mas a capacidade de resposta não agrada aos utentes
Paulo Dumas
Quinta-feira, Outubro 1, 2020

O atendimento prestado pelas Unidades de Saúde Familiar (USF), vulgarmente conhecidas como os médicos de família, tem por estes dias sido posto em causa pelos utentes. As queixas têm sido uma realidade constante, o que leva o tema para a ordem do dia.

Inclusivamente a comissão política concelhia do Partido Social Democrata (PSD) de Guimarães enviou uma carta ao ACES Alto Ave (Agrupamento de Centros de Saúde do Alto Ave), demonstrando a sua preocupação com o atendimento que não está a ser feito aos utentes, tal como o Reflexo noticiou.

O nosso jornal tentou perceber como estão a funcionar as Unidades de Saúde Familiar locais, por forma a encontrar respostas e falou com Sílvia Neto Sousa, coordenadora da USF Ara de Trajano, nas Taipas, e também com Carina Antunes, coordenadora da USF Ronfe.

Médicos trabalham mais horas, mas as diretrizes não permitem o mesmo atendimento

Da conversa mantida com as duas coordenadoras sobra uma certeza: os médicos das USF estão a trabalhar mais horas nesta fase. “Estamos a trabalhar acima das nossas capacidades, seguindo as normas superiores. Estamos a ser o mais justos possível e é importante que as pessoas percebam que temos de fazer uma triagem para que seja possível atender quem realmente precisa”, afirma Sílvia Neto Sousa.

Uma ideia corroborada e exemplificada por Carina Antunes, que destaca que “antes cada médico fazia 32horas e neste momento faz 35horas assistenciais, ou seja, mais do que é supostos fazer”.

Contudo, apesar deste aumento da carga horária, a capacidade de reposta não está a ser a expectável por parte dos utentes. Ao invés das tradicionais consultas de quinze em quinze minutos, as consultas têm de ser feitas de meia em meia hora para permitir a higienização dos gabinetes. Questões como a capacidade das salas de espera e mesmo a necessidade de fazer consultas assistenciais aos casos de Covid-19 inviabilizam o mesmo fluxo de atendimento.

USF Ronfe “está a correr riscos” e já faz atendimento normal

Apesar dos constrangimentos, a USF Ronfe, pertencente à unidade funcional das Taipas do Aces Alto Ave, já retomou as consultas.  “Estamos a trabalhar normalmente dentro do que a situação nos permite. Desde junho temos horários completos e até mais alargados. As pessoas pensam que não, porque não temos a acessibilidade que tínhamos antes, mas além de estar a tentar recuperar o que está para trás, quase um mês sem assistência presencial, estamos a dar consultas não só aos grupos de risco como consulta de saúde de adultos normal, mas em menor número”, aponta a Carina Antunes.

Tal decisão de retomar a atividade nestes moldes foi decidida pela equipa da USF Ronfe, por sua própria conta e risco, mesmo sem ter o material adequado.

“Não temos material de segurança para todos; não temos máscaras para todos, não temos batas para todos e não temos EPIS – equipamento de proteção individual de segurança para todos. Enquanto outras unidades decidiram de outra forma, por não ter material, nós decidimos correr riscos para aumentar as acessibilidades aos doentes”, assegura a coordenadora da USF Ronfe, uma USF que conta com sensivelmente 15mil utentes.

“Devem aguardar até a chamada ser atendida ou desligada automaticamente”

Também na USF Ara de Trajano as debilidades existem, mesmo com o corpo clínico a “trabalhar acima das capacidades”.  A coordenadora desta USF taipense que tem sensivelmente 12mil utentes dá conta que o número de consultas teve de ser reduzido e, por esse facto, tem de haver uma triagem prévia por email ou telefone.

“Estamos numa luta constante, com a equipa a trabalhar no limite. Não podemos fazer como antigamente, servir todas as pessoas que precisam e muito menos repor o que não foi feito durante o confinamento”, sublinha a Sílvia Neto Sousa.

Admitindo que o volume de solicitações telefónicas aumentou, a coordenadora garante que está a ser feito o possível para dar resposta dentro das limitações existentes e deixa alguns conselhos. “Temos informado os utentes para ligar várias vezes ao dia e aguardar até a chamada ser atendida ou automaticamente desligada. Os utentes quando ligam para cá ficam de imediato em chamada, o que dá a atender que ninguém está a atender o telefone, mas na realidade o secretário clínico está com outra chamada. Isso cria ansiedade, porque as pessoas pensam que o telefone está a tocar e ninguém está a atender na unidade”, esclarece, apontando também o correio eletrónico como meio preferencial para contactar as USF.

O Reflexo tentou obter respostas por parte o ACES Alto Ave, nomeadamente o diretor José Novais de Carvalho, assim como de outras USF da região, mas sem sucesso até à publicação desta reportagem.