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Marta Mestre trabalha para afirmar o CIAJG como um “espaço plural”
Marta Mestre trabalha para afirmar o CIAJG como um “espaço plural”
Bruno José Ferreira
Domingo, Janeiro 17, 2021

Anunciada em setembro como nova curadora do Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG), Marta Mestre fala ao Reflexo sobre as suas expetativas.

Esperando um arranque lento na introdução de mudanças, a curadora tem como objetivo tornar este espaço mais plural e criar mais pontos de contacto entre o CIAJG e Guimarães, começando desde já pela universidade. Marta Mestre acredita no potencial da tarefa que tem em mãos e crê que será possível estabelecer parcerias importantes para o futuro.

O que a levou a propor-se a desempenhar este cargo de curadora do (CIAJG)?

O CIAJG e o trabalho de José de Guimarães são uma referência no meio cultural e artístico. O CIAJG possui um acervo único não só do ponto de vista da qualidade, mas também da originalidade. O potencial de debate e construção de sentidos em torno a este acervo é muito grande e abarca questões do presente tais como a alteridade, a nossa relação com os outros, as assimetrias globais, a relação norte e sul, as hegemonias do conhecimento. As coleções de José de Guimarães, assim como a sua obra, são alimento para refletir. Tudo isto são ingredientes que me interessam. E tudo isto existe em Guimarães.

 

O facto de ter sido a aposta entre um número considerável de candidaturas leva a que tenha mais responsabilidade?

A responsabilidade tem a ver com a importância do CIAJG e as expectativas que este cargo exige. Sei que tenho um trabalho exigente pela frente e isso motiva-me. Também sei que é um trabalho que não se faz sozinha. Ocupar-me-ei do programa artístico dentro de uma visão de conjunto. É necessário que esse programa seja acompanhado por uma dimensão institucional mais ampla.

 

No dia do anúncio prometeu um “programa de continuidade”, mas com a introdução de “mudanças”. Já tem isso mais estruturado e uma ideias mais concreta que seja possível anunciar?

Trabalhar a continuidade, no caso de um museu, é um ponto essencial. Trata-se de reforçar valores simbólicos e culturais na longa duração. As principais mudanças que irei fazer vão realizar-se ao nível das “zonas de contacto” entre o CIAJG e o território de Guimarães, reforçando a necessidade de trabalhar e conhecer a cidade, as instituições, as escolas, os artistas. Ao longo de 2021 essas mudanças serão visíveis, e vamos começar pela Universidade. O programa artístico terá o seu início em março. Acredito que será um ano de arranque lento, mas que nos permitirá estabelecer parcerias importantes para o futuro.

 

Que objetivos tem para o CIAJG? Em traços gerais quais são as suas grandes ambições?

O meu principal objetivo é trabalhar para que o CIAJG seja um espaço plural, de encontro de diferentes vozes, sujeitos, identidades. Parece simples, mas é algo complexo. Os ingleses têm uma expressão que gosto – “entanglement” – e que significa “entrelaçar”. Entrelaçar valores, objetos, pessoas, afetos. O CIAJG tem um grande potencial de continuidade e maturação institucional… está a chegar o seu 10ª aniversário. É um balanço que deve ser feito por todos e todas.

 

Frisou o estatuto internacional do CIAJG aquando da sua apresentação. Internacionalizar quer a programação quer os próprios visitantes é o caminho ou um dos caminhos?

Assim como o CIAJG precisa reforçar as zonas de contacto, de que falava há pouco, com o território, também precisa de fazer circular os seus valores no plano internacional. O CIAJG é um espaço que, embora localizado num território e contexto específicos, interpela a outras geografias e temporalidades, encena diferentes formas de narrar o mundo e, nesse sentido, não cristaliza a cultura local, mas estabelece pontes para fora.

 

Destacou a ideia de pretender mudar-se para Guimarães. É importante esta proximidade?

Sim, passarei a viver em Guimarães. Quero conhecer este território.

 

PERFIL MARTA MESTRE
·         Marta Mestre, natural de Beja

·         Licenciatura em História da Arte pela Universidade de Lisboa

·         Mestrado em Cultura e Comunicacão/Museologia pela Universidade de Avignon (França)

·         Curadora do Instituto Inhotim (Minas Gerais 2016-2017)

·         Curadora-assistente do Museu de Arte Moderna (Rio de Janeiro 2010-2015)

·         Curadora-convidada e professora da Escola de Artes Visuais Parque Lage (Rio de Janeiro 2016)

·         Curadora do Centro de Artes de Sines (2005-2008)