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Manik Mané, o taipense que saltou para a ribalta como tradutor nos jogos da UEFA
Manik Mané, o taipense que saltou para a ribalta como tradutor nos jogos da UEFA
Bruno José Ferreira
Sábado, Março 7, 2020

Tinha tudo para ser apenas mais uma conferência de imprensa normal, com um tradutor a fazer o seu trabalho normal, mas a um conjunto de fatores atirou Manuel Manik Mané para um boom mediático que seria difícil de adivinhar. O jovem taipense de 26 anos, mestrado em Interpretação de Conferências e Traduções, fez a tradução de inglês para português, e vice-versa, nas conferências de imprensa do jogo entre o SC Braga e o Glasgow Rangers, e acabou por quase tirar o protagonismo a Steven Gerrard, treinador inglês do Rangers.

O motivo foi o facto de usar óculos de sol devido a uma conjuntivite e também a camisola com listas berrantes com que se apresentou. “Nem queria usar aquela camisola, sabia perfeitamente que estava fora do contexto, mas estava com frio. Vim da Guiné e ainda me estou a ambientar a este clima. O facto de estar com os óculos de sol também afeta a visibilidade, o que a juntar ao frio deixava-me numa condição em que não estava a 100 por cento. A responsável que me levou para a interpretação disse para vestir a camisola. Levava calças clássicas castanhas e camisa branca, mas com o frio vesti a camisola. Disse à responsável que, se desse para o torto, a culpa era dela”, começa por referir Manik Mané, jovem de 26 anos que atualmente vive em Ponte, mas já viveu nas Taipas, onde cumpriu parte do percurso escolar.

As referidas conferências foram transmitidas em direto e obviamente que, a juntar à qualidade da tradução, a forma como Mané se apresentou teve impacto, ao ponto de o tradutor ser notícia em vários órgãos de comunicação desportivos. “Vim de transporte público para casa, demorei mais de uma hora, cheguei a casa e vi que estavam a chover notificações no meu telemóvel. Fiquei até incrédulo quando vi que até já tinha sido escrito um artigo sobre mim. Têm sido dias diferentes, parece que faço anos todos os dias. Recebo mensagens de amigos, professores, ex-professores, colegas, até meros intérpretes de Portugal que me têm agradecido por estar a pôr a profissão no mapa. Tem sido gratificante para mim”, atira Manuel Manik Mané.

Ele que até tem ascendência no mundo da bola, uma vez que o seu pai, Abdu Mané foi jogador, ajudando, por exemplo, o Gil Vicente a subir à 1.ª Divisão em 1999. É também primo de Cafu, jogador formado no Vitória SC que atualmente joga na Grécia. Manik também tentou a sua sorte na bola, mas enveredou por outro caminho. “Quando estava no liceu, meio perdido na vida, à procura do sonho de jogar futebol, tive dois ou três professores que me aconselharam a tradução, porque falo várias línguas. Ouvi aquilo, mas só entrei porque naquele momento era a vida mais fácil para entrar na universidade. O futebol até me estava a correr bem, mas eu quero ser um profissional de eleição e no futebol nunca chegaria a ser um profissional de eleição”, sustenta.

Licenciatura em Manchester e mestrado em Edimburgo

Manik Mané já morou em seis países diferentes e licenciou-se na Universidade de Manchester, tirando depois o mestrado em Edimburgo. Já esteve noutras conferências, “a do Nuno Espírito Santo até correu melhor, mas não teve o alarido desta”, refere com bom humor. Encara este mediatismo da sua tradução como uma oportunidade para dar a conhecer a profissão. “É um momento para outros ficarem a conhecer mais sobre a minha profissão. Em termos de abrir portas, não acho que venha mudar muito no imediato porque aqui em Portugal as traduções no mundo do futebol ainda são um mercado fechado. A maior parte dos estrangeiros são brasileiros ou africanos das ex-colónias e um ou outro sul americano”, sublinha.

Para dar seguimento à sua carreira, provavelmente Manik Mané terá de se aventurar pelo estrangeiro, como já fez várias vezes. “Comparado com outros países, como Inglaterra, não somos muito necessários aqui. Tirando estas conferências não vejo que possa ter muitas oportunidades no futebol. Mas sou versátil e o mestrado foi vocacionado para várias áreas”, revela.

O sonho de Manuel Manik Mané é poder trabalhar com a seleção portuguesa de futebol e estar presente no próximo Mundial do Qatar, isto no mundo do futebol, claro. Para que fique claro, a camisola foi escolhida por mero acaso e Mané nunca pensou que a mesma o ajudasse a saltar para a ribalta. “Se eu pensasse que teria de usar camisola durante a conferência teria levado outra”, refere.